domingo, 12 de abril de 2009

Luz no Fim do Túnel

PREFÁCIO

Quem nunca se perguntou quando em um momento de crise que se realmente merecia estar passando por aquilo? Quem nunca depois de ter passado por um mau momento, se viu agradecendo a uma força divina seja qualquer que fosse sua crença ou religião?
Esse livro não vem para explicar o porquê das coisas acontecerem, mas vem com a pretensão de mostrar que essa força divina conhecida por alguns como Deus, por outros com Alá, Jhá ou qualquer que seja seu nome, realmente existe e que seu poder é tão grande que a própria Ciência até hoje não conseguiu explicar sua existência, porém ajoelha-se perante tantos fatos e argumentos que acompanham a humanidade desde o dia da criação.
O que você vai ver a seguir é a estória de um jovem normal de família de classe média como outra qualquer, mas com um diferencial: o fato de hoje ele poder estar contando e compartilhando de suas trágicas experiências de vida com o intuito de mostrar pra todo mundo que não é preciso ser um crente fervoroso ou um católico assíduo pra se ter ajuda de Deus, e sim, basta você crer realmente na sua existência e saber que assim como todo mundo você também está sujeito às provações que ele te enviar. Todos os fatos contados aqui são verídicos e apenas alguns nomes serão mudados por questões jurídicas ou até mesmo de preservação da imagem.
Luz no Fim do Túnel vem mostrar que podemos sim aprender com as dificuldades e que sempre podemos através da fé melhorar nossas atitudes em relação ao próximo e a nós mesmos.
Barreiras foram feitas para serem quebradas e dificuldades existem para que possamos no final dar valor a tudo que conseguirmos.
Se hoje esse livro pôde ser escrito, foi simplesmente porque ao invés de seguir o que parecia ser “o caminho mais fácil” como o das drogas ou da marginalidade, preferi acreditar em Deus e aceitar todas a provações enviadas por ele.


O COMEÇO


Segunda feira, 26 de setembro de 1993, cidade de Aracaju onde na Rua das Dálias, n° 94 residem em uma casa uma família constituída de seis pessoas. O patriarca dessa família chama-se Umberto, mais uma das milhares de pessoas que vem do interior estudar na cidade e tentar uma vida melhor. Filho de pais pobres veio para cidade com dezoito anos tentar conciliar seus estudos em Administração com seu trabalho numa fábrica de doces de fundo de quintal. Nesse período Umberto conhece Orlenadja, a matriarca dessa família, filha de Osvaldo, um dentista e Pastor da Igreja Metodista que como muitos daquela época cuidava dos filhos através de uma educação rigorosa demais para os tempos de hoje.
Juntos, os dois começam um namoro onde com o apoio e compreensão recíprocas conseguem depois de alguns anos se casar mesmo sem muitas condições financeiras. Em 19 de Junho de 1976 nasce seu primeiro filho que recebe o nome do pai e chamado por todos pelo seu último nome: Júnior. Depois de batalhar muito e progredir profissionalmente, Umberto, o pai, com o cargo de Assessor Financeiro da CNEC, um órgão do Estado responsável pela manutenção e desenvolvimento das escolas municipais no Estado, e Orlenadja, a mãe, agora formada em Serviço Social e trabalhando na Secretaria de Articulação do Estado, conseguem ter seu segundo filho: Peterson cinco anos depois do nascimento do primeiro.
Menos de dois anos depois de Peterson, nasce Igor, o terceiro último filho da família.
Com o passar dos anos, depois de muita luta e muito trabalho, o casal consegue ter um bom padrão de vida pra aquela época. Os filhos estudando em escolas particulares, uma boa casa, bons carros, bons salários enfim, todos os motivos para se ter uma aparente felicidade. Mas algo ainda viria a acontecer naquela família que mudaria toda sua estrutura. No ano de 1993 a família aumentaria, não com um nascimento de mais uma pessoa, e sim com a chegada de um sobrinho de Orlenadja, filho de Dida, como era carinhosamente chamada a irmã mais nova dela. Michael Jeff era o nome dele, uma homenagem do pai ao cantor pop de maior sucesso na época. Michael era portador de uma síndrome muito rara em crianças chamada Síndrome de Kron, doença que aos poucos compromete o organismo do portador debilitando-o aos poucos. Como os pais naquela época não tinham condições para cuidá-lo, Orlenadja o trouxe para morar na casa, onde receberia melhores cuidados médicos, cuidados esses que viriam de um casal de médicos chamados Dr. Aragão e Dra. Elvira, que eram padrinhos de Peterson, filho do meio do casal e amigos deles desde a época da Faculdade. Amigos esses que teriam fundamental papel na família, uma vez que Peterson, aos dez anos tivera pego meningite tipo “B”, doença que se não cuidada a tempo, levava a morte. Mas graças ao desprendimento tanto dos pais quanto do casal de médicos, o pior foi evitado.
Mas o que aconteceria depois mudaria pra sempre a estória dessa família.



A Tragédia


No dia 26 de Setembro de 1993, uma segunda feira, eu, Umberto Júnior, nessa época com dezoito anos, acordei em meu quarto e fui tomar meu café da manhã como fazia todos os dias e já na mesa, recebi o pedido do meu pai para ir ao centro da cidade fazer algumas coisas e na volta, passar no Banco que ficava próximo a nossa pra fazer alguns pagamentos. Ao me levantar, fui ao banheiro onde encontrei meu irmão Peterson escovando os dentes e ouvindo minha mãe pedir-lhe pra que trocasse o botijão de gás que ficava atrás da cozinha. Lembro-me de ter passado por ele e ter brincado como sempre fazia. Ao ir para o centro da cidade e cumprido minha tarefa, resolvi então sentar no banco da praça onde ficava a Catedral Metropolitana da cidade e folhear um jornal, já que o banco só abriria as nove e ainda faltara um pouco de tempo até isso acontecer. Lembro-me de um senhor sentar ao meu lado e puxar assunto comigo e que depois de meia hora eu me levantar e ir para o Banco fazer os tais pagamentos como tinha combinado. Feito isso, fui andando pra casa, pois a distância não era muita e notei que ao chegar, encontrei o portão totalmente aberto e o volume do som totalmente no máximo sendo que a fita cassete que estava tocando havia chegado ao fim, fazendo com que o único barulho que se podia ouvir era de um chiado alto sem nada mais para tocar. Lembro-me de ter entrado em casa e perguntar em voz alta se haveria alguém ali, pois como era de costume a casa vivia cheia com nossos amigos, mas foi em vão, não havia ninguém. Entrei em casa e comecei a resmungar em voz alta: -“Quando entrar um ladrão aqui é que vocês vão aprender a fechar esse portão”. Feito isso, fui ao quarto dos meus pais onde estava o som e desliguei o aparelho, em seguida fui ao meu quarto onde troquei de roupa e só então me encaminhei à cozinha pra tomar um pouco de água. Foi aí, que ao passar pela porta que dava acesso a lavanderia da casa, que vi a imagem mais aterrorizante da minha vida, imagem essa que persegue meus pensamentos até os dias de hoje mesmo tendo passado tantos anos depois. Foi ao passar por aquela porta que encontrei meu irmão Peterson, morto, envolto numa corda, pendurado e com um dos pés apoiado em uma mesa enquanto que em volta dele, mas precisamente na lavanderia, estava ali montado um tipo de altar com alguns dos pertences que ele mais gostava: um cavalo de barro, animal o qual ele mais gostava, um chapéu dado por mim, junto de um par de botas e entre as coisas uma carta que pedia para que ninguém se preocupasse pois eles estaria fazendo uma viagem e sabia muito bem o que estava fazendo. Que apenas cuidássemos uns dos outros e de algumas coisas que ele gostava como seus passarinhos e seus cães.
Lembro-me que ao encontrá-lo, o sentimento de terror, medo e desespero tomaram conta de mim e que a minha primeira reação foi sair correndo daquele lugar. E foi isso que realmente fiz, até parar na área da frente da minha casa e ter em minha cabeça a remota possibilidade de ter caído em mais uma de suas brincadeiras. Foi então que reuni forças pra voltar e com tamanha vagareza fui em direção mais uma vez do local que o tinha encontrado, rezando para que aquilo que eu acabara de ver fosse apenas uma brincadeira de mau gosto feito por uma criança de quase quatorze anos.
Ao chegar ao local, pude observar que infelizmente, ao contrario do que eu queria que fosse verdade, lá estava ele, ainda na mesma posição, com seus lábios completamente roxos e com aquela corda apertando seu pescoço. Saí correndo ainda mais apavorado, dessa vez em direção a rua, onde ao escutar meus gritos, Rita, nossa vizinha por quase 11 anos, me acolheu, e vendo que eu estava em estado de choque sem conseguir explicar nada, resolveu ela mesma entrar na casa para ver o que tinha acontecido voltando em seguida praticamente do mesmo jeito que eu, em estado de choque.
Nesse período, em nossa rua, alguns vizinhos, que ao notarem nossos gritos, vieram nos socorrer logo que imediatamente. Me levaram então para casa de Daniel, meu melhor amigo na infância, onde lá, fui acolhido por seu padrasto, Otavio, um representante de remédios casado com Ione, uma médica pediatra, onde ambos sempre tiveram um carinho especial por mim, pois tinha os dois como uma espécie de tio e tia que sempre me acolheram em seu lar. Lá, me lembro de Ione me dar um remédio para acalmar meu sistema nervoso que desde então estava tão abalado que nem o telefone do meu pai eu conseguia me lembrar.
Finalmente, depois de muito procurar, conseguiram encontrar o telefone do meu pai e da minha mãe, e algum tempo depois, vi meu pai chegar e ao me encontrar, me dar um abraço e me perguntar como eu estava e que loucura foi aquela que meu irmão tinha feito. Mal conseguia falar para ele toda a estória, pois estávamos muito atordoados com aquilo tudo que estávamos passando, e então decidimos ir mais uma vez para o local em que meu irmão se encontrava pra procurar entender o porquê dele ter feito aquilo. Ao chegarmos a nossa casa, encontramos uma verdadeira multidão de conhecidos, desconhecidos e curiosos que ali estavam para ver de perto um menino que até pouco tempo brincava naquela rua, naquele bairro e que do nada parece que decidiu por um fim em sua própria vida.
Quando chegamos ao corpo do meu irmão, os homens que trabalhavam no Instituto Médico Legal já estavam no local e antes que pudessem tirar meu irmão dali, vi meu pai olhar pra ele, e com lágrimas em seus olhos, ouvi-o pedir pra Everaldo, um dos meus melhores amigos, para que pedisse para ele sair dali, como se meu irmão estivesse apenas dormindo.
Sempre tive a imagem do meu pai relacionada à de um super-homem, inabalável, sempre tendo a situação sobre controle. Mas não naquele dia. Naquele dia, o que pude ver foi a imagem de alguém que simplesmente não estava acreditando naquilo que estava acontecendo, alguém abalado sem saber o que fazer da vida.
Mas ainda faltava avisar minha mãe, que naquela hora se encontrava num bairro pobre da cidade fazendo uma espécie de censo pra assentar algumas famílias sem teto. Com ela também se encontrava a Primeira Dama do Estado na época, Dona Maria do Carmo, que além de chefe era também sua amiga. E foi ela quem atendeu ao telefone e ficou responsável de dar a triste notícia. Coincidência ou não minha mãe havia passado mal aquela manhã, inquieta, preocupada, segundo algumas amigas, como se estivesse prevendo alguma coisa ruim, e quando dona Maria a pediu que entrasse no carro e mandou seu motorista seguir em direção a nossa casa ficou fácil pra minha mãe perceber que algo estava errado.
Ao entrar na rua em que morávamos minha mãe notou o carro do IML estacionado à porta e foi então que Dona Maria teve que lhe contar toda verdade sobre o que havia acontecido ao meu irmão. Nessa hora eu já não estava mais em casa, fiquei com a difícil missão de pegar Igor, meu irmão mais novo que ainda estava no Colégio e lhe contar sobre o fato ocorrido. O que mais me surpreendeu foi ver como uma criança de quase treze anos reagiu a notícia. Lembro-me que após lhe contar tudo, a única coisa que ele me perguntou foi: - Como está meu pai e minha mãe? -A gente vai ter que ser forte. Respondi. –Hoje, mais do que nunca, eles vão precisar muito da gente.
Quando retornamos pra casa, fomos direto ao quarto ver minha mãe que naquele momento se encontrava na cama, medicada e rodeada por nossos amigos. Percebi naquela hora o quanto esse apoio foi fundamental pra gente.
O dia em que meu irmão morreu foi sem sombra de dúvidas um dos dias mais longos já vividos por nossa família. Aos poucos, todos nossos parentes chegavam pra nos dar apoio e ficar ao nosso lado velando o corpo de “Pepeu”, como ele era carinhosamente chamado.
Foi impressionante ver como nossos cachorros reagiram a tudo isso, pois eles foram as principais testemunhas daquele ato que meu irmão cometera, e se antes eles não deixavam passar nada despercebido sem que latissem afoitos, naquele momento e durante muito tempo depois, eles permaneceram ali, calados, como se estivessem observando tudo atônitos, e apesar do movimento imenso das pessoas que ali estavam presentes para o velório e enterro respectivos, nenhum latido foi ouvido.
Sempre achei que coisas como a morte do meu irmão, por exemplo, só pudessem acontecer com outras famílias. A verdade é que achamos que isso nunca pode acontecer com a gente, e por isso nunca estamos preparados pra esse tipo de coisa. Mas a verdade é que quando elas acontecem, desestruturam qualquer família, e com a minha não foi diferente.



As Conseqüências


As conseqüências eram evidentes. Após todo ato funeral, o que se viu foi um chefe de família sem a mínima noção de como encarar a vida dali pra frente, alguém que, pra dar uma de forte perante a família desabava na madrugada chorando sozinho na cozinha, se perguntando o porquê daquilo estar acontecendo na vida dele. De certa forma, aquilo era de se esperar. Afinal de contas meu pai havia perdido um filho e um verdadeiro parceiro, uma vez que meu irmão era o principal acompanhante dele em tudo na vida.
Minha mãe depois disso, passou a encarar a vida de um modo totalmente diferente do que era antes. Seu sorriso não mais existia, sua alegria já não mais estava presente e seu olhar antes alegre, agora dava lugar a uma tristeza enorme no semblante. E assim se foi por muito tempo após a morte do meu irmão.
Meu irmão Igor foi um dos que mais mudou com o acontecido. Aquela criança que não desgrudava do antigo parceiro que agora não mais existia, agora se fechava dentro de um mundo só seu, sem dar espaço pra nada nem pra ninguém. O que se via era um menino fechado que mal dava uma palavra e que passou a seguir a vida acompanhado sempre de sua tristeza e do seu silêncio.
Pra mim as conseqüências foram as mais duras possíveis, já não mais dormia, ou quando conseguia, meu sono era sempre habitado por pesadelos e visões do meu irmão enforcado. Lembro-me que um dia depois da sua morte, tive o primeiro sonho relacionado a ele. O encontrei numa casa enorme com muitos cômodos e sua aparência era a de uma pessoa frágil. Lembro-me que lhe perguntei o porquê dele ter feito aquilo e ele me pegou pela mão e me levou a um quarto onde se encontravam algumas crianças de várias idades. Perguntei o porquê de elas estarem ali também e ele me respondeu que eram todas como ele. Tornei a perguntar sobre o que ele tinha feito e ele me respondeu que o que estava feito estava feito e que eu me preocupasse apenas em cuidar dos meus pais e meu irmão. Mas não foi isso que fiz, ao invés de fazer o que ele me pediu, eu andava sempre com medo e pra esquecer de todos os problemas encontrava refúgio em farras e bebidas as quais davam a falsa impressão de alívio, e cada vez mais eu me afundava em meus próprios problemas.
Nossa casa já não me parecia mais segura a ponto do meu pai ter que vendê-la pelo fato de toda a família não se sentir mais à vontade naquele lugar.
Fomos então pra um apartamento num bairro novo tentar uma vida nova. E foi o que aconteceu, só que os problemas e as conseqüências do que meu irmão fez nos seguiam e aquilo realmente conseguiu abalar e muito a estrutura da nossa família, onde cada um em particular, tentava esquecer daquilo ao seu modo. Meu pai e principalmente minha mãe se entregavam mais e mais ao trabalho, meu irmão, ao jeito dele, se fechava em seu mundo e assim conseguia levar a vida e quanto a mim, mesmo com o apoio da família e dos amigos, parecia achar tranqüilidade apenas quando saia pra alguma festa e enchia a cara a noite toda.
Alguns meses depois, veio o segundo contato meu com o inexplicável. Após retornar da casa de praia de um tio onde estava com minha família fui dormir só no apartamento e após pegar no sono senti que meu corpo de uma forma repentina havia ficado ligeiramente leve a ponto de ao abrir meus olhos notar que eu já não estava mais na cama e sim sobre ela, como se estivesse levitando. Desesperei-me ao ver aquilo e como que num ato reflexo apoiei minha mão na grade da janela e foi aí que tirei a conclusão de que aquilo já não era um sonho ou um pesadelo, pois conseguia sentir o frio do alumínio em minha mão. Foi quando notei que quanto mais me desesperava mais ouvia uma mistura de gritos e gemidos em meus ouvidos e pude ver também que tinha um corpo deitado em meu lugar na cama. Com grande esforço consegui me abaixar a ponto de retirar o lençol sobre aquele corpo e foi aí que vi uma das piores visões até então, alguém com o rosto totalmente desfigurado e com grande sofrimento no semblante. Após isso meu corpo levitou mais ainda e só depois de ter feito uma oração com fé foi que consegui ver que algo ou alguém segurava minha mão e confesso que o medo era tamanho que não conseguia abrir os olhos pra ver quem era. O que pude notar foi que quanto mais eu orava mais calma aquela mão que me segurava me transmitia, e depois de um tempo foi que vi que podia abrir os olhos e notar o quarto vazio e a calma da madrugada em meu apartamento.
Na manhã seguinte fui trabalhar meio atordoado com o que tinha acontecido e ao retornar ao final da tarde vi que meus pais já estavam em casa. Contei o fato a eles e a resposta que me deram é que eu ainda tava muito abalado com tudo que tinha acontecido e que aquilo tudo era fruto da minha imaginação causada pelo trauma da morte do meu irmão. Mesmo discordando fui jantar e logo após fui dormir, ainda com receio de tudo que tinha acontecido na noite anterior. Pra minha sorte minha noite foi tranqüila e na manhã seguinte pude ir ao trabalho um pouco mais aliviado.
Ao chegar a noite notei que tanto meu pai quanto minha mãe estavam agitados, meio que desconfiados de alguma coisa. Foi quando meu pai me chamou e me disse o que tinha acontecido: no começo da noite, enquanto meu pai tava em meu quarto assistindo televisão minha mãe procurava descansar na rede da varanda do nosso apartamento. Segundo meu pai, minha contou-lhe que após pegar no sono sentiu-se leve e que ao abrir os olhos, viu que estava levitando sobre a rede a ponto de quase sair pela varanda que ficava no quinto andar do apartamento. Contou-lhe também que gritava pelo nome do meu pai apavorada e que ele, mesmo no quarto ao lado não conseguia escutá-la, e que só depois de fazer uma oração foi que conseguiu voltar a pousar novamente sobre seu corpo.
Aquilo havia deixado ela apavorada, pois minha mãe era filha de um Pastor da Igreja Metodista e como tal havia sido criada pra ignorar fatos como esse, e a coincidência disso ter acontecido duas noites antes comigo não deixaram dúvidas pra gente sobre a veracidade desses acontecimentos.
O primeiro casamento
Algum tempo depois fui a uma festa em uma cidade do interior próximo chamada Propriá e lá conheci uma menina chamada Verônica a qual acabei me relacionando. Pouco tempo depois recebi a notícia de ela estaria grávida e que o filho seria meu. No começo relutei muito, pois tinha apenas dezoito anos e não estava preparado pra ser pai ou até mesmo pra assumir tamanha responsabilidade. Mesmo assim minha mãe ficou sabendo e me obrigou a ir até a casa dela assumir a responsabilidade de criar a criança. Após chegarmos lá, o encontro entre minha mãe e Verônica foi além das expectativas e o que era pra ser apenas um acordo entre famílias acabou se transformando em casamento, mesmo contra minha vontade. Em meio a isso tudo, pude perceber que havia um ponto positivo nisso tudo, aquela criança que estaria para nascer deu a minha mãe uma ponta de esperança de amenizar aquele sofrimento todo na nossa família e principalmente o dela.
Só que cinco meses depois de Verônica ter ido morar lá em casa aconteceu que na noite em que estava estudando num colégio próximo ao nosso apartamento, Verônica sentiu dores e foi levada ao Hospital onde foi constatado que ela havia perdido o bebê.
Aquilo foi outro golpe pra minha mãe e minha família, em tão pouco tempo após a morte do meu irmão. Agora seria o primeiro neto dela e meu primeiro filho que havia partido antes mesmo de ter chegado.
Após isso, meu casamento já não mais existia, e mesmo sabendo, disso minha mãe não deixou Verônica partisse, pois havia criado um vinculo muito grande com ela. Passei a dormir no quarto com meu irmão enquanto Verônica dormia em meu quarto como sempre foi desde o começo. Pouco mais de um ano após sua chegada e sem condições de uma possível volta em nosso relacionamento Verônica resolve então ir embora e voltar pra casa dos pais, deixando minha mãe triste e a mim aliviado, pois agora me sentiria solteiro novamente.
Só que algum tempo depois disso aconteceu que meu pai me pediu para que meu irmão e eu fôssemos levar um primo nosso a um interior chamado Muribeca, que fica distante da capital uns 75 km, e como tínhamos uma caminhonete e meu primo acabara de chegar ao Aeroporto e estava com algumas malas que só caberiam em um carro grande, ele pediu que fizéssemos esse favor. Fomos então como combinado, e ao deixar meu primo resolvemos voltar naquela noite mesmo, pois daria tempo de dormirmos em casa mesmo. Ao chegar na entrada da última cidade antes da nossa um caminhão que estava a nossa frente por algum motivo nos trancou e na tentativa de não bater com ele pisei no freio bruscamente fazendo a caminhoneta rodar na pista ficando fora do meu controle. Batemos então numa ponte só que sentido contrário, sendo a batida tão forte a ponto de tirar o pneu dianteiro pra fora dela. Como isso não bastasse, um outro carro que vinha em sentido ao nosso acabou colidindo com a gente fazendo com que a passageira voasse pelo pára-brisa e indo direto ao nosso encontro. Foi preciso que meu irmão descesse do carro e a segurasse para que ela não caísse lá em baixo da ponte. Felizmente ninguém ficou gravemente ferido, a passageira após um exame médico foi liberada com apenas alguns arranhões, meu irmão e eu ficamos apenas com a marca do cinto de segurança em nossos tórax e o motorista do outro carro com um corte superficial no joelho. Após isso ligamos para meu pai e meu tio Antonio que chegaram pouco tempo depois. Ao ver o semblante do meu pai quando ele chegou foi que pude notar que não era só o prejuízo material que o entristecia, mas a possibilidade de perder mais dois filhos em um acidente de carro. Ao chegar em casa abracei minha mãe e fui pro meu quarto chorar, pois só depois do acidente foi que fui me dar conta que poderia ter matado a mim e a meu irmão por um simples erro na estrada.
Nossa família continuou a viver normalmente, mesmo depois de tanta coisa ter acontecido em tão pouco tempo. Eu ainda continuava a ter visões e pesadelos, mas de uma forma cada vez mais rara. Minha mãe se entregava ao trabalho cada vez mais a ponto da gente só ver ela a noite quando ela não estava viajando ou nos fins de semana quando também não estava trabalhando. Eu, meu irmão e meu pai agora tomávamos conta de uma padaria que tínhamos acabado de arrendar como uma forma de aumentar a renda da família. Eu trabalhava de dia e estudava a noite fazendo o curso de Relações Públicas na Universidade. Minha mãe sempre que podia dava uma força pra gente nos fins de semana ou quando tinha uma folga.
Só que algum tempo depois de termos estabelecido uma clientela boa e fazermos amizade com a vizinhança do local e é claro, fazer com que a padaria desse lucro, aconteceu que minha mãe e eu estávamos acabando de fechar a padaria quando surgiu um homem que eu imaginava ser um suposto cliente. Ele sacou um revólver e apontou pra mim e pra minha mãe e disse que senão entregássemos o dinheiro do caixa ele acabaria com a gente ali mesmo. A sensação de indefesa diante de uma arma me fazia ter raiva de mim mesmo por não poder fazer nada e quanto mais ele se dirigia a minha mãe, mais minha raiva aumentava. Foi quando pedi pra que deixasse minha mãe em paz e levasse o que quisesse contanto que nos deixasse vivos. Felizmente essa tragédia foi evitada. Após levar todo o dinheiro do caixa o assaltante desapareceu nos deixando ali, com a sensação de alivio. Após isso decidimos então abrir mão da padaria, pois não valia a pena ficar num local onde a segurança era mínima e os assaltos eram cada vez mais constantes.
Após isso resolvi fazer um teste pra um estágio na Caixa Econômica Federal e em meio a muitos candidatos acabei sendo selecionado pra ocupar a vaga até então aberta. Confesso que foi uma grande escola na minha vida profissional, pois ser estagiário num Banco implica em dizer q você passa por quase todos os setores da Instituição, adquirindo assim experiência em quase todas as áreas financeiras.
A vida ia prosseguindo normalmente até que um dia quando minha mãe e eu decidimos fazer Cooper numa avenida próxima ao nosso apartamento e no meio da caminhada um carro conduzido por uma mulher que ficara assustada ao ver uma blitz policial, nos atropelou após uma tentativa frustrada de tentar fazer uma curva para se livrar da tal blitz. Lembro-me de ter sido pego de raspão pelo veículo enquanto via minha mãe sendo pega de cheio e sendo arremessada contra o muro de um prédio. O que impediu que o pior acontecesse foi o fato de haver um poste de eletricidade que impediu que o carro esmagasse minha mãe contra o muro. Felizmente o pior não aconteceu após ser levada ao Hospital, foi constatado que nada acontecera a minha mãe senão algumas escoriações. É engraçado como a vida nos manda avisos, pois alguns meses depois desse acidente viria mais uma tragédia que acabaria pondo um fim definitivo no que ainda chamávamos de família.
Novembro, dia dezoito, três dias após o aniversario da minha mãe, aniversário esse que ela comemorara em Maceió junta a amigos feitos em uma excursão em que ela e minhas primas fizeram pouco tempo antes, por alguns lugares do Brasil. Lembro-me de acordar com a voz dela reclamando junto ao meu pai que não ganhara nenhum presente meu enquanto via meu extrato bancário sobre a mesa e constatava que o destino do meu dinheiro sempre estava relacionado a festas e farras. Decidi então ficar um pouco mais de tempo na cama afim de não ter que encarar meu pai e ouvir um sermão de como eu não conseguia economizar dinheiro mesmo não pagando coisa alguma em casa.
Pouco tempo depois, ao ver que meu pai tinha ido embora, resolvi sair e tomar meu café da manhã e ao encontrar minha mãe dei-lhe um beijo e disse-lhe para que não se preocupasse, pois ainda haveria de lhe comprar um presente, o que não me salvou de receber aquele sermão de que eu evitava tanto. Após isso minha mãe me disse que estaria indo a Salvador levar uma pessoa ao que precisava se consultar no Hospital de lá e como ela era Assistente Social, aquilo era mais do que comum pra mim, pois se havia alguma coisa que minha mãe fazia com freqüência era viajar a trabalho. Cogitei até a possibilidade de acompanhá-la, mas tinha que estar no Banco pra trabalhar o que me impediu de pensar em pedir pra ir também mesmo ela voltando no fim da tarde.
Dei-lhe um beijo e me despedi dela, saindo pra trabalhar logo após. Meu dia tinha sido comum no banco, afinal, tarefas bancárias chegam a ser rotineiras e naquele dia não foi diferente. No fim da tarde, fui jogar futebol no Condomínio vizinho e no meio da partida senti algo estranho em mim mesmo, um mal estar tão forte a ponto de me fazer desistir do tal jogo. Resolvi voltar pra casa então e lembro-me até de antes de chegar em casa, encontrara Everaldo, um amigo de infância que morava próximo a minha antiga casa onde meu irmão falecera. Contei a ele sobre meu mal estar e ao irmos a direção ao meu apartamento vimos a caminhonete do meu pai totalmente atravessada na rua e ao lado dela meu tio e ele encostados à parede com o semblante triste. Antes mesmo de chegar até eles senti a certeza de que algo de ruim acontecera a minha mãe abracei-me ao meu amigo chorando e dizendo: perdi minha mãe! Ele quase que sem entender nada tentava me consolar e me dizia que eu estava sendo precipitado, pois não tinha nem conversado com meu pai ainda e já estava tomando conclusões precipitadas. Mas naquela hora eu já tinha certeza e todo aquele mal estar que eu estava sentindo no final da tarde agora fazia sentido, eu estava perdendo minha mãe.
Ao chegar perto do meu pai perguntei-lhe o que havia acontecido com minha mãe e ele e meu tio me disseram que a única coisa que sabiam é que havia acontecido um acidente com o carro em que minha estaria viajando e que havia sobrevivido apenas uma pessoa nesse acidente que ainda não havia sido identificada. Nesse momento a gente tenta cultivar o mínimo que seja de esperança, mas não eu. Pelo que soube, o motorista do carro, ou melhor, a ambulância em que minha mãe se encontrava havia perdido o controle e colidido com um veículo onde estavam um pai e um filho que voltavam para Salvador. O acidente aconteceu na cidade de Esplanada na Bahia e a violência havia sido tão grande que ao baterem, os veículos se incendiaram fazendo com que todos com exceção de uma pessoa que haveria voado pela janela, morressem carbonizados sem a mínima chance de sair, já que se encontravam atracadas em meio às ferragens. A possibilidade de essa pessoa ser minha mãe era o que dava esperança ao meu pai e ao restante da nossa família que algumas horas depois já estavam em nosso apartamento, mas eu estava cético quanto a isso. Sabia que minha mãe só viajava no banco da frente, o que diminuía e muito as possibilidades dela ter voado pela janela de trás, e ainda tinha aquele mal estar no fim da tarde como se alguma coisa de ruim estaria para acontecer e aconteceu de fato. Só de madrugada que veio a confirmação do pior, após meu tio, um policial rodoviário federal aposentado, conseguir entrar em contato com alguns amigos, também policias rodoviários que estariam lá no local do acidente dando socorro e organizando o transito, informa-lhe que a pessoa sobrevivente seria um homem e não uma mulher e que todos os demais passageiros haviam sido carbonizados pelas chamas que o acidente causou. O homem citado seria o marido da paciente que minha mãe levara ao hospital que por sorte ou destino foi lançado pra fora do carro na hora do acidente.
A notícia caiu como uma bomba pra todos nós da família porque minha mãe apesar de todos os problemas que havia passado era considerada por todos como uma mulher de ferro, aquela com quem sempre se podia contar nas melhores ou piores horas e o fato dela ter morrido de forma tão violenta não era assimilado por todos naquele momento.
O que aconteceu em seguida foi o que posso chamar de ‘os dois dias mais demorados de minha vida’, pois como o acidente havia acontecido na cidade de Esplanada na Bahia e os corpos estavam sem condições de serem identificados, o que pudemos fazer foi esperar enquanto o Instituto Médico Legal da Bahia recebesse a radiografia da arcada dentária da minha mãe, pois o corpo em si não tinha condições de ser identificado.
Dois dias após o acidente foi que pudemos fazer o velório do corpo da minha mãe, mas nas piores condições possíveis já que o caixão veio lacrado em virtude do estado que o corpo dela se encontrava. Nessas horas pudemos ver o quanto a minha mãe era querida, pois o que se viu naquele dia foi uma verdadeira procissão de amigos, parentes, conhecidos e até mesmo de desconhecidos nossos. Gente que minha mãe ajudava através do seu trabalho, gente que vinha dar o último adeus aquela a quem eles chamavam de mãe também. Pessoas desafortunadas, que viviam nas ruas sem expectativa nenhuma de vida e eram socorridas por ela.
Pouco tempo depois da morte da minha mãe meu pai decidiu mudar-se para o sítio levando consigo meu irmão dando início ao que eu costumo chamar de completa decadência na nossa estrutura familiar. As coisas agora eram totalmente diferentes para mim, sem minha mãe por perto tudo parecia novo e ao mesmo tempo assustador. Estava sozinho no apartamento e não tinha ninguém com quem contar, nas horas de solidão achava abrigo nas farras e na bebida e continuava assim a percorrer um caminho cada vez mais longe daquilo que minha mãe havia sonhado pra mim. O tempo foi passando e as coisas piorando cada vez mais, agora desempregado, não tinha a menor condição de manter o apartamento, as discussões com meu pai eram constantes, pois ele não achava certo manter um imóvel tão caro que só servia de serventia para mim e eu em contrapartida junto com meu irmão não aceitávamos o fato dele estar envolvido com outra mulher pouco mais de um ano após a morte da minha mãe.
O tempo foi passando e a melhor saída que encontramos foi chamar um tio meu e sua família para vir morar comigo e dividir as despesas. E foi isso q aconteceu. Pela primeira vez na vida voltei a sentir o que era ter uma família de novo, coisas simples para alguns que para mim tinha um gostinho especial. Só o fato de chegar em casa e encontrar alguém pra conversar já era de grande valia pra mim.
Mas as coisas só começaram a melhorar de verdade pra mim quando conheci uma pessoa que se tornou muito especial em minha vida: Renata. Pela primeira vez depois de tanta coisa ruim acontecida em minha vida finalmente algo que me fez esquecer temporariamente meus problemas. Eu finalmente havia me apaixonado por alguém, coisa que parecia impossível até então. O namoro não durou muito tempo, mas o pouco tempo serviu pra de alguma forma me aliviar de tantos problemas e traumas em que eu havia passado.
Havia muitos problemas em nossa volta e o fato dela estar estudando pra prestar vestibular foi o que mais atrapalhou nossa relação que pouco tempo depois não resistiu a tanta pressão vinda principalmente da família dela que cobrava para que ela desse ênfase aos estudos deixando assim nossa relação em segundo plano.
O namoro acabou, mas o amor que eu sentia por ela não e por muitos e muitos anos depois ainda sentia o mesmo nervosismo e o mesmo nó na garganta que muitas pessoas juram sentir quando estão apaixonados e se aproximam da pessoa amada.
O fato é que quando conheci Renata eu estava passando por uma fase ruim da vida que já durava algum tempo, as coisas que tinham acontecido comigo haviam me deixado meio que cético no que se tratava de relacionamento. Eu já havia namorado outras meninas antes, mas a verdade é que foi com ela que pude esquecer um pouco dos problemas do mundo lá fora e pude pela primeira vez me apaixonar de verdade por alguém.
O ruim é que isso não durou muito tempo uma vez que por mais boa vontade que ela tivesse, não conseguia gostar de mim do mesmo jeito, e isso a incomodava muito até que numa noite, na despedida das aulas dela no semestre o namoro (se é que isso podia ser chamado de namoro, já que havia tão pouco tempo de relacionamento) chegou ao fim.
Com certeza sofri muito com isso, mas até do que pensava que iria sofrer, mas a verdade é que isso acabou sendo pra mim mais uma peça que a vida havia me pregado.
O tempo passou e um ano mais tarde resolvi ir para uma cidade próxima a convite de um amigo. Itabaiana ficava a uns 67 km de Aracaju e estava tendo uma espécie de carnaval fora de época lá. Foi quando se deu inicio a uma nova fase da minha vida. Após esse carnaval comecei um namoro com Mônica, alguém com quem me identifiquei muito e por esse motivo resolvi apostar e mudar de cidade. Resolvi deixar o apartamento onde morava com meu tio e sua família e mudei-me para Itabaiana a fim de ficar mais perto de Mônica. Acabei arrumando emprego num escritório de contabilidade do mesmo amigo que havia me levado para essa mesma cidade e acabei me hospedando num apartamento dele, já que o mesmo não morava naquela cidade, apenas trabalhava. Passado alguns meses depois fui mais uma vez pego de surpresa ao ver que Mônica queria dar um tempo em nosso namoro alegando estar confusa sobre o que sentia. Resolvi ficar na cidade por mais algum tempo na esperança de poder voltar o relacionamento. Passado alguns meses achei por bem ir embora da cidade e voltar para o meu apartamento, mas como iria acontecer a festa da Padroeira da cidade decidi chamar alguns amigos da minha cidade para passar o fim de semana comigo a fim de nos divertimos na festa e voltar com eles tão logo a festa acabasse. No entanto não foi isso que o destino havia reservado pra mim. No penúltimo dia de festa conheci Aline, aquela que seria a futura mãe da minha filha. Depois de nos conhecermos e ficarmos resolvemos levar a diante aquilo que nem a gente mesmo acreditava que daria certo. Aline apesar de ter um corpo de mulher tinha um rosto que não escondia sua idade de quatorze anos e isso era o maior empecilho entre a gente uma vez que eu já estava com vinte e cinco anos. Mas pra quem duvidava que desse certo acabou quebrando a cara porque mesmo com toda essa diferença de idade Aline foi a que até então me fazia esquecer mesmo que momentaneamente Renata, uma vez que nenhuma pessoa até então tinha conseguido fazer. Algum tempo depois já estávamos muito bem, minha relação com a família dela era muito boa, apesar de sempre discordar com o estilo de vida que a mãe dela levava e a vida parecia que realmente tinha dado certo pra mim. Mas nem tudo foram flores nessa relação. A começar pelo namoro que depois de algum tempo começava a dar sinais de desgastes e o fantasma de Renata havia voltado a ocupar meus pensamentos. Às vezes me pegava ligando escondido pra ela, apenas pra saber como ela estava, confiante de que um dia me diria que estaria solteira e que pudesse ascender um pouco da luz da esperança que ainda havia em mim, mas a resposta era sempre a mesma. Ela me dizia que estava muito bem e que estava apaixonada acabando sempre com aquela ilusão de que eu tinha de um dia voltar o namoro. A relação com a família de Aline já não era tão boa, as brigas com a mãe dela já eram quase que uma constante em minha vida e todo aquele amor que eu pensava sentir por ela já não era mais tão forte assim. Mesmo assim Aline foi responsável por uma grande mudança em minha vida. As farras de fim de semana agora davam lugar ao namoro sério, meu pensamento sobre o futuro agora já existia, quando antes nem de perto passava por minha cabeça, sem contar com minha relação com o resto da minha família que tinha melhorado e muito desde que assumi o namoro.
Alguns meses depois, Aline e eu decidimos dar um tempo no namoro, a pressão que passávamos naquele momento principalmente por parte da mãe dela fez com que nos afastássemos um do outro, mas mesmo assim continuávamos amigos e sempre que dava a gente dava um jeitinho de ficar juntos. Foi nesse período da vida que resolvi ligar para Renata e finalmente dizer tudo aquilo que esteve preso durante todo o tempo em que estive com Aline e não pude declarar todo o amor que sentia por ela. Lembro-me que passamos muito tempo ao telefone e que ao terminar de esclarecer pra ela que nunca a havia esquecido, que sempre estive apaixonado por ela, mesmo estando com Aline, pude ouvir, depois de muito tempo algo que me dava ao menos uma faísca de esperança, algo que ansiava por muito tempo ouvir da boca dela. Que acreditava no meu amor, que sabia que aquilo tudo que eu estava falando era verdade, mas que apesar de estar namorando, sabia que se estivesse solteira poderia sim me dar a segunda chance que tanto necessitava. Aquilo pra mim foi um dos momentos mais felizes da minha vida, pois depois de muito tempo sem vê-la pude finalmente criar alguma expectativa a seu respeito. Bastava pra mim agora apenas o namorado dela dar um vacilo, o que não era tão difícil de acontecer, pois até onde eu sabia os dois viviam brigando.


O Segundo Casamento


Mais uma vez acabei tomando a atitude totalmente errada, pois ao invés de esperar e tentar voltar com Renata acabei voltando o namoro com Aline, mesmo escondido da mãe dela. Até que um dia, quando estava em meu apartamento junto com Aline e uma amiga a quem todos chamavam carinhosamente de “Lalá”, decidi tomar um banho e me arrumar pra sair, uma vez que estávamos esperando por Macio, marido de Lalá e meu melhor amigo lá em Itabaiana. Acontece que após fazer isso fui ao encontro das duas quando me deparei com Lalá muito nervosa sem saber como me dizer o que havia acontecido. Perguntei por Aline e ela me respondeu que a mãe dela (Aline) estivera em minha casa e praticamente arrastou Aline pelos cabelos dizendo que nunca aceitaria aquele namoro. Num impulso de raiva decidi pegar a chave do meu carro e ir atrás dela pra tentar amenizar a situação. Quando cheguei ao local, Aline veio ao meu encontro em prantos pedindo pra que eu fosse embora, pois a situação já tinha chegado a um ponto insuportável e que minha presença ali só poderia piorar as coisas. Foi quando tomei a decisão que mudaria de uma vez por todas o rumo da minha vida. Chamei Aline para que viesse a fugir comigo para Aracaju, pois sabia que naquela hora, não tinha como a mãe dela nos encontrar. E foi isso que aconteceu. Sem pensar duas vezes Aline entrou no carro e fomos para a Capital onde nos hospedamos na pousada de Alehandro, namorado da minha prima Andressa. Passamos três dias lá onde decidimos que quando voltássemos iríamos direto para minha casa. Já estava eu ali casado novamente.
Os dias se passaram e não sobrou nenhuma alternativa para a mãe de Aline do que aceitar esse casamento, pois uma vez morando juntos significava para toda a sociedade daquela cidade que ali se constituía também um tipo de casamento que já estava ficando bastante comum a todos. Poucos meses depois Aline acabou engravidando, o que pôs fim a toda e qualquer chance que eu até então sonhara de ficar com Renata. Resolvi então eu mesmo dar essa notícia para ela e pra minha surpresa, recebi a notícia que a mesma acabara de ficar solteira. Aquilo para mim foi como um tiro na cabeça, pois só então havia caído na realidade que eu mesmo tinha acabado de enterrar e sepultar o grande amor da minha vida. Renata recebeu a noticia com espanto pois não entendia como um cara que se dizia tão apaixonado por ela acabara de engravidar a ex-namorada, pois até aquele momento ela não sabia o que tinha acontecido entre Aline e eu.
A verdade é que mesmo com tudo isso acontecendo em minha vida, eu encarava aquela gravidez como a realização de um sonho, pois ter um filho era uma das poucas coisas que eu pensava em ter na vida e quando Aline engravidou senti que Deus estaria realizando aquele velho sonho. É aquela velha estória: Deus pode ter te fechado uma porta, mas ele sempre abre uma janela.



A Gravidez


Apesar da gravidez de Aline ter sido tranqüila no que se diz respeito a saúde, nossa relação piorava com o tempo. Agora mais do que nunca, Aline estava supersensível e qualquer coisa boba entre a gente era motivo de discussão. Mais do que nunca, a influencia da mãe sobre ela agora era bem mais forte e aquilo me incomodava muito. Já sem dinheiro e tendo que sobreviver com o pouco que ganhava trabalhando numa distribuidora de bebidas, minha vida nem de perto lembrava os tempos em que tinha chegado na cidade com o bolso cheio de dinheiro sem me preocupar com o amanhã.
Até minha vida sexual foi afetada. Não conseguia mais ter prazer na cama e isso afetava Aline diretamente que foi sentindo o quanto a gente estava ficando afastado um do outro. Eu não conseguia tirar da minha cabeça que tinha jogado fora a chance de poder ter dado certo com Renata, minhas condições financeiras também não ajudavam a ponto de ter que aceitar que o meu pai pagasse o meu aluguel, o que pra mim era inaceitável e as divergências com a mãe de Aline que eram cada vez mais constantes me fizeram tomar uma medida drástica, chamei Aline para morar em Aracaju, minha cidade, longe de sua família e o único lugar que eu poderia tentar encontrar a paz. Aline não aceitou e pouco tempo antes de nossa filha nascer resolvi me mudar sozinho e acabei indo morar na casa de Fernando, um grande amigo que junto com sua mãe, Dona Dora, a quem sempre carinhosamente chamava de “Tia” me deram abrigo enquanto eu me estabelecia num novo emprego, agora numa distribuidora de remédios de Otávio, pai de Daniel, aquele mesmo do começo da estória que morava em minha rua e era meu melhor amigo lembram? Pois é, acontece que a casa de Fernando era muito pequena e decidimos então alugar um apartamento no mesmo condomínio em que eu morava quando minha mãe morreu, pois era bem maior e eu tinha prometido a Tia Dora que falaria com meu pai para que ele pagasse a taxa de condomínio para diminuir as despesas. Isso acabou não acontecendo, pois a coisa que eu mais detestava no mundo era pedir alguma coisa pro meu pai, não que ele não fizesse, mas pelo simples fato de estar mostrando pra ele que mais uma vez estaria precisando de sua ajuda, coisa que por questão de orgulho, sempre fazia questão de evitar. Decidi eu mesmo pagar o condomínio fazendo com que Tia Dora pensasse que era meu pai que assim o fazia, e sendo assim resolvemos ir a Itabaiana pegar minhas coisas (móveis e objetos pessoais), uma vez que Aline estaria agora morando na casa da mãe. Ao chegar lá, minha grande surpresa, toda a mobília da casa havia sumido e antes que eu cogitasse a idéia de um assalto, recebi a notícia de um vizinho que a mãe de Aline havia encostado um caminhão de mudanças e havia levado todos os meus móveis, a mobília completa. Aquilo me deixou furioso no momento, e pra piorar a situação por coincidência a própria se encontrava passeando na frente do meu antigo apartamento como se quisesse conferir de perto a minha desgraça. Graças a um portão fechado de cadeado as coisas não saíram mais ainda do controle. Entre gritos e palavrões o caso foi parar numa delegacia da mulher onde eu havia sido chamado pra depor sobre a acusação de calúnia e difamação. Pensei comigo mesmo, só no Brasil que um sujeito é roubado e tem que prestar esclarecimento porque xingou o ladrão.
Pra minha surpresa, a delegada que cuidou do caso não me deu nem a chance de explicar e se aproveitando de sua autoridade mandou que eu me afastasse e que voltasse sem as minhas coisas. Uma vez que toda a mobília da minha casa foi comprada por mim e nem a metade dela eu tive direito de trazer de volta pra minha nova casa. Aconselhado por Fernando e a mãe dele, voltei para Aracaju com as mãos vazias, mas ao mesmo tempo aliviado por estar saindo daquela cidade de uma vez por todas.




O Nascimento de Alice


Pouco tempo depois nasce Alice, minha filha que por infantilidade da minha parte só fui ver quase um mês depois. Mesmo assim só por pouco tempo, pois estar em Itabaiana era o fim pra mim. Decidi então me afastar de vez daquela cidade, uma vez que minha filha era um bebê ainda e não entenderia a situação que eu estava passando, até porque a última coisa que eu queria era ficar perto da família de Aline.
Feito isso fui tratar da minha vida, pois tinha que recomeçar do zero, e foi isso que fiz. Em pouco tempo estava trabalhando como Vendedor numa Concessionária de Veículos, o que me rendia o suficiente pra ir pagando a taxa do Condomínio como havia “supostamente” combinado com a mãe de Fernando, meu parceiro de apartamento. Mas como todos sabem, mentira tem perna curta e certo dia, após deixar atrasar o condomínio por falta de dinheiro, pois o trabalho já não estava tão bom assim pra mim, fui pego na mentira pela mãe de Fernando que fora chamada pelo dono do apartamento pra prestar explicações sobre o atraso do condomínio, que por sua vez ligou pro meu pai pra saber o que estava acontecendo. Não preciso dizer o tamanho da decepção que foi pra ela e pro meu pai descobrir que eu havia mentido pelo simples fato de não querer pedir ajuda ao meu pai.
Sem ter mais como ficar com eles, só me restou a opção de me mudar pro sitio onde meu pai morava. Agora desempregado, tive que fazer aquilo que mais temia na vida: morar no lugar que eu mais abominava no mundo. Não só por está afastado da cidade, mas por que desde pequeno sempre tive uma espécie de fobia sobre aquele lugar. Lembro-me que quando estava a ponto de reprovar no colégio, sempre sofria pressão do meu pai dizendo que se eu reprovasse teria que passar as férias escolares naquele sitio que sempre foi pra mim uma espécie de castigo, algo que não descia, não entrava em minha cabeça.




A Mudança


Sem opção nenhuma acabei tendo que ir morar no sítio mesmo, apesar de não gostar de lá meu pai me recebeu de braços abertos e foi a partir daí que minha estória com ele começou a mudar. Adaptar-me aquele novo estilo de vida não foi nada fácil pra mim, vivia sempre cabisbaixo e não suportava a idéia de ser sustentado por meu pai depois de tantos anos vivendo sozinho. Pra complicar a situação ainda tinha que conviver com a mulher do meu pai, alguém que a meu ver seria por natureza minha concorrente direta ali dentro, alguém que estava no lugar da minha mãe, mesmo depois desta estar morta há vários anos e isso eu não aceitava de forma alguma. O tempo foi passando e como naquele ano seria ano de eleições recebemos a visita de uma jovem candidata ao cargo de prefeito da cidade, cuja família do marido era uma das mais poderosas forças políticas existentes na região. O patriarca dessa família era amigo do meu pai e isso me serviu como entrada na equipe política dessa então candidata. A partir daí fui crescendo cada vez mais dentro daquele time de pessoas que tinham o objetivo de eleger aquela candidata. Comecei como operador de Computador por causa da minha formação como Técnico em Informática e em pouco tempo já havia me tornado uma das principais pessoas da confiança daquela família. A medida que as eleições iam se aproximando eu assumia cada vez mais o posto de assessor político do principal colaborador daquela candidata, seu marido, cujo nome não se deve aqui citar por questões até mesmo pessoais. O que posso dizer é que tamanha era a ambição desse político que seu plano eleitoral era ter duas das principais cidades do Estado em arrecadação de Roilyaltes pagos pela Petrobrás pela extração de Petróleo sob seu comando. O que acabou não acontecendo uma vez que ao final das eleições, sua mulher acabou perdendo por uma diferença de apenas 49 votos enquanto que seu pupilo na outra cidade acabou ganhando por uma margem maior de votos, frustrando seu plano inicial de ter duas das maiores rendas do Estado nas mãos. Nessa época eu já não estava morando no sitio com meu pai, uma vez que o trabalho consumia quase que todo meu tempo e a distancia entre o sitio e a cidade dificultava muito minha disponibilidade de horário. Durante esse período passei a morar na pousada da minha cunhada, Nayara, namorada do meu irmão, que junto com toda sua família me receberam de braços abertos.
Passado às eleições, continuei sendo assessor pessoal desse político, uma vez que o próximo passo dele seria conquistar uma vaga na Câmara Estadual como Deputado, o que aconteceria dois anos depois. Acontece que não fiquei até o final pra ver isso acontecer. Depois que as eleições acabaram decidir voltar pra capital, uma vez que agora trabalhando, podia tentar um recomeço na cidade que eu nasci e que morria de saudades todos os dias enquanto estava fora.



A VOLTA


Decidi então alugar um quarto num pensionato enquanto decidia o que fazer da vida. Por enquanto o salário de assessor dava pra cobrir as despesas com o pensionato, até mesmo porque eu sempre fazia as refeições no trabalho, o que economizava e muito em meu orçamento.
Mas isso não durou muito tempo não. Quanto mais tempo eu passava conhecendo a política de perto, mais me enojava das coisas que eu via e que tinha que partilhar junto daqueles que usavam a política como um artifício, um modo de usar o dinheiro público em benefício próprio. Aquilo já estava se tornando insuportável pra mim, uma vez que dentro daquele esquema, ficava cada vez mais difícil de sair. Uma pessoa que me ajudou muito na época foi minha então namorada, Cléo, que além de ser evangélica, se mostrava cada vez mais companheira, meu braço direito quando a coisa esquentava. Foi ela quem me aconselhou a cair fora daquele meio, afinal de contas, nem eu mesmo entendia o que estava fazendo ali.
E foi o que eu fiz, na manhã seguinte, quando o motorista foi me pegar como de costume, comuniquei-lhe que não mais iria e entreguei-lhe uma carta de demissão pedindo desculpas e pedi para que comunicasse ao seu patrão que eu estava fora daquele grupo. Mesmo me parecendo ser uma decisão correta aquilo tudo me assustava, pois aquele emprego era minha única fonte de renda, e eu não queria voltar a morar na casa do meu pai. E por falar em meu pai, esse se mostrou mais preocupado ainda, pois se havia uma coisa que o tranqüilizava era saber que eu estava trabalhando com aquela família, que alem de ser muito bem quista na cidade dele, também era muito conhecida por proteger todos os que faziam parte do seu grupo. E isso bastava para o meu pai. Uma das coisas mais difíceis que tive que fazer na vida foi ter que encarar meu pai sem ter argumentos para tal, afinal, aquilo que eu acabara de fazer lhe parecia uma verdadeira loucura, pois de onde eu tiraria recursos para continuar vivendo em Aracaju sem ter um trabalho para me apoiar? Mesmo assim fui ao seu encontro e tudo que lhe disse foi para que não se preocupasse, pois se havia alguém que sempre esteve comigo e nunca tinha me abandonado até então, esse alguém era Deus, e não seria naquele momento que ele iria me abandonar. Vi os olhos de o meu pai encherem de lágrimas enquanto que eu enxugava as lágrimas do meu rosto que naquela altura da discussão não tinha mais como controlá-las. A partir daquele momento, foi que percebi que minha relação com Deus estava mais forte do que nunca. As pessoas têm o hábito de só procurar a Deus quando passam por alguma dificuldade extrema, e eu não era diferente. Mas tomar uma decisão daquele tipo baseado apenas na fé de que tudo daria certo não parecia tão sensato pra maioria das pessoas. De qualquer forma a decisão estava tomada e tudo que eu tinha que fazer era sair atrás de um novo emprego, o que não aconteceu com facilidade. À medida que o tempo passava mais eu me perguntava se tinha tomado a decisão certa. Nessas horas o apoio de Cléo era fundamental, pois era nela que eu me apoiava quando minha fé se abalava.
Com o tempo, o resto do pouco dinheiro que meu pai me deixara estava acabando e a situação pro meu lado vinha piorando e mais. A saída mais sensata foi procurar minha Tia Dida, a mãe do meu primo Michael que morava lá em casa quando minha mãe era viva. E foi o que fiz, liguei para o então marido dela e perguntei se podia passar um tempo morando com eles, até achar um emprego de novo. Fui recebido da melhor maneira possível, novamente eu estava no meio de uma família, o que me fazia muito bem, pois desde que minha mãe havia morrido eu só teria tido essa experiência uma vez quando morava com Fernando e a mãe dele, o que não era a mesma coisa, pois não havia aquela coisa de “sangue”, o que também não diminuiu minha consideração por eles.
Tia Dida como era chamada carinhosamente por toda a família da minha mãe era uma espécie de guerreira, pois desde a morte da minha mãe, ela teve que assumir de vez a responsabilidade de cuidar do filho, Michael, que morava com a gente quando minha mãe ainda era viva e tinha melhores condições pra cuidar dele do que minha tia e seu marido na época. Infelizmente Michael veio a falecer alguns anos depois da minha mãe, pois a doença que ele sofria havia se alastrado por todo o seu corpo, fazendo com que seus últimos anos fossem variando sua estadia entre sua casa e o hospital por varias vezes.
No final das contas morar com ela foi bom para ambas as partes pois ao mesmo tempo em que me sentia em casa novamente, pude notar a alegria que era para ela poder retribuir de algum modo tudo que um dia minha mãe havia feito por seu filho. Quem não havia gostado muito disso foi minha namorada Cléo, pois minha tia morava muito longe de onde costumávamos nos encontrar e com essa mudança os nossos encontros que eram quase diários foram reduzidos a uma ou duas vezes na semana. Além disso, o fato de eu não estar trabalhando me deixava desanimado em relação ao namoro, pois quase sempre eu estava sem dinheiro, o que me impossibilitava sempre de sair com ela. Cléo pelo contrário, lutava sempre pra que a gente pudesse ficar juntos e nunca me deixava sentir só ou desanimado. Com o tempo passando e nada de interessante acontecendo em minha vida, comecei a ficar entediado com tudo, inclusive com o namoro, já não me sentia tão próximo a Cléo e começava a ter crise de consciência a respeito dela, pois a última coisa que eu queria naquele momento era magoá-la. Pra piorar as coisas entre a gente, conheci Joana, cunhada da minha prima Michely, filha da minha tia Dida, que confesso me fez sentir algo especial desde a primeira vez que nos vimos. Joana também namorava, mas assim como eu, não estava atravessando uma fase tão boa no namoro também. Isso acabou nos unindo muito e foi crescendo entre a gente algo bem mais forte que amizade. Foi então que decidi acabar meu relacionamento com Cléo e investir tudo em Joana, mesmo sabendo que podia quebrar a cara. Ela era apaixonada pelo namorado, mas sempre que nos falávamos dava pra perceber que havia algo de especial entre a gente. Certo dia, recebi da minha prima a noticia de que Jô, como ela era conhecida por todos, havia terminado seu namoro, e que viria junto com seu irmão, Guilherme, namorado da minha prima, passar a noite na casa da minha tia pra poder conversar comigo.
Tratei logo de não perder tempo e fui de imediato a uma loja de Telemensagens passar uma mensagem fonada pra Jô, pra mostrar que eu não estava brincando em relação a ficar com ela. Enfim a noite chegou e junto com ela uma ansiedade sem tamanho. Finalmente eu estava sentindo aquilo que não sentia há muito tempo por outra pessoa que não fosse Renata. Estar com Jô me dava a sensação de poder se sentir vivo de novo, e todos os problemas da minha vida pareciam finalmente estar menos complicados. Graças a Deus tudo deu certo pra gente naquela noite e assim se foi por um breve período de tempo. Mas as coisas estavam boas demais para serem verdade, e algum tempo depois, após uma festa a qual não pude comparecer pela falta de dinheiro, vim saber por nossos amigos que ela havia voltado o namoro sem ao menos me comunicar. Aquilo me deixou infinitamente irritado e com raiva da vida. Pela primeira vez me vi um homem sem fé e culpei a Deus por me tirar qualquer coisa boa que a vida tenha me dado. Uma mistura de fúria com frustração tomava conta de mim, e o desespero falava cada vez mais alto em meu coração. Agarrei-me a minha tia e, como uma criança, comecei a chorar colocando toda a culpa da minha vida estar daquele jeito em Deus. Não me conformava com o porquê daquilo estar acontecendo logo comigo. O que eu teria feito pra Deus de tão grave a ponto de não poder ser feliz em nenhum aspecto? Era o que eu pensava sempre. Passei semanas assim, não comia e não queria fazer mais nada. Ficava a maior parte do tempo no quarto e não falava com ninguém. Minha tia, meu tio, minha prima, enfim, todos ficaram preocupados comigo. A única coisa que me fez superar foi quando minha tia entrou no quarto e veio conversar comigo. Lembro-me de suas palavras dizendo o quanto eu era especial pra ela, e que não valia a pena ficar assim por uma pessoa que desde o começo eu sabia que podia não dar certo. Deus não tem culpa dos nossos atos, não é ele que nos faz acertar ou errar. Foi aí que eu percebi o quanto egoísta eu estava sendo. O quanto infantil da minha parte eu fui quando coloquei minha fé em risco quando deixei de acreditar em Deus pra justificar meus erros.
Naquela noite fiz uma oração e me reconciliei com aquele que sempre esteve comigo em todos os momentos da minha vida. Pedi perdão e tratei de pedi sua benção não só pra mim, mas pra todas aquelas pessoas que estavam passando por um momento de dúvida assim. Naquela noite percebi que Deus envia seus anjos pra falar com a gente, e eles não têm que ser propriamente de asinhas nas costas e de cachinhos dourados não, Deus usa seus filhos aqui na terra pra fazer esse papel de vez em quando.
Mesmo apaixonado por Joana decidi levar minha vida e preencher o tempo com algo mais produtivo como arranjar um emprego. E foi o que aconteceu, dias depois recebi uma ligação e fui convidado a fazer uma entrevista pra uma empresa prestadora de serviços na área de telefonia para empresas. Fiquei muito entusiasmado coma proposta que recebi e comecei a trabalhar na semana seguinte mesmo. Meu trabalho era oferecer planos mais atrativos para empresas que tivessem um custo de telefonia alto, o que chamávamos de “Plano Empresa”. Pra minha sorte meu supervisor era uma pessoa que tinha uma estória de vida parecida com a minha e me deu total apoio pra que eu começasse a produzir bons resultados na empresa. O que não posso dizer da Gerente-Geral, que ao me ver disse ao meu supervisor que eu não me adaptaria ao trabalho, já que o mesmo consista em bater metas e que eu não duraria três meses lá. Meu supervisor resolveu então fazer uma aposta com ela. Se em dois meses eu não estivesse entre os três primeiros consultores da empresa, ela teria carta branca pra me demitir. Graças a Deus e a perseverança de Carlos, meu supervisor, consegui não só bater as metas exigidas pela empresa, mas também ficar entre os três primeiros consultores da Empresa. Finalmente eu estava descobrindo uma coisa em que eu tinha me adaptado bem, e junto com as metas batidas vinham o respeito por parte de todos e o retorno financeiro. Em pouco tempo consegui arranjar dinheiro pra dar entrada numa moto e financiar o resto, o que acabaria com meu problema de transporte e me ajudou e muito no meu trabalho.
As coisas estavam indo bem no trabalho, mas meu coração ainda estava muito magoado com o que Joana me fez e isso me fazia pensar muito em Renata, pois os anos haviam se passado, mas sempre que eu a encontrava em algum lugar subia aquele mesmo frio na espinha junto com todos os outros sintomas da paixão que eu sentia com ela, e se tinha uma coisa que eu sempre admirei nela era sua honestidade, sua integridade como pessoa. Nunca nesses anos todos ela tinha me enganado ou me iludido. Sempre tinha deixado claro que o que tinha rolado entre a gente não tinha tido o mesmo efeito pra ela, que apesar de gostar muito de mim, sempre foi um sentimento de amizade e nada mais que isso. Joana pelo contrário tinha me machucado demais e aquilo não saia do meu coração, o que me levou a ter raiva dela e a esquecer que um dia eu a tinha conhecido.
Quanto ao trabalho, eu ganhava cada vez mais experiência com o tempo, até que um dia, ao chegar na empresa soube que meu supervisor tinha pedido demissão por ficar do lado de um funcionário num impasse que envolvia a irmã da Gerente-Geral, o que era inadmissível para a mesma. Sabendo disso não pensei duas vezes e junto com Carlos pedi a minha demissão também, o que se tornou um efeito dominó, pois todos aqueles que admiravam o trabalho dele fizeram a mesma coisa ou foram convidados a sair. Pra meu espanto minha demissão não foi aceita, pois a mesma pessoa que antes tinha sido contra minha admissão, me pedia pra reconsiderar minha decisão. Mesmo assim decidi ficar do lado de Carlos, pois se havia uma coisa que ele tinha conquistado era minha admiração e respeito.
Com a experiência que eu havia ganhado com Carlos, eu havia me tornado um dos Consultores mais procurados no Mercado de Trabalho, e se antes, quando desempregado, eu estava ao lado daqueles que procuravam emprego, agora, era o contrário, eu tinha várias ofertas de emprego no ramo da Telefonia.
Mesmo assim decidi seguir Carlos que por sua vez, em pouquíssimo tempo, conseguiu não só empregar a si mesmo, como também conseguiu levar a todos para trabalhar na mesma empresa.
Se por um lado as coisas corriam bem no que se dizia respeito ao meu lado profissional, por outro as coisas não iam nada bem no âmbito emocional. Ainda sentia a falta de Joana, e como sabia que de Renata, a única coisa que eu tinha conquistado era a amizade, passei a me sentir sozinho, carente. Decidi então continuar investindo no trabalho e deixar minha vida amorosa de lado. Cada vez mais ia pegando experiência no ramo, e junto com Carlos passei a me empenhar sempre mais e mais, fazendo com que meu retorno financeiro valesse mais a pena. Em casa, o que mais me incomodava eram as brigas que minha tia tinha com o marido dela. Eu sabia de todas as coisas erradas que ele fazia fora do casamento, mas como gostava muito dele e também morava em sua casa, preferia ficar de fora das brigas, que aumentavam gradativamente todos os dias.



As Farras


O mês de Maio do corrente ano havia sido muito bom pra mim nas vendas e com isso separei uma parte da comissão que havia recebido pra fazer meu aniversário que aconteceria em Junho, e também para aproveitar as festas juninas que eram tradicionais no Estado. Foram praticamente trinta e um dias de festa na cidade e eu aproveitando cada um deles e como se não bastasse, também era ano de Copa do Mundo que também estava acontecendo naquele mês. Foi a combinação perfeita pra que eu gastasse o que tinha e o que não tinha. E foi mais ou menos isso o que eu fiz. Gastei quase tudo naquele mês e no dia dezenove, dia do meu aniversário, resolvi juntar os amigos mais próximos e fazer uma festa pra comemorar. Os dias que vieram depois também serviram pra comemoração e as festas e as farras não tinha fim. Com isso as vendas caíram, pois sempre estava de ressaca e praticamente não trabalhava mais.
Apesar de andar sempre nas festas e de estar conhecendo sempre gente nova, não havia ninguém que me fizesse tocar o coração de um modo especial, o que fazia com que sempre me sentisse cada vez mais só.



A Esperança


No dia vinte e dois de Junho, quase na semana final das festas juninas, e uma data triste no meu calendário, pois era nessa data que fazia seis anos do término do meu namoro com Renata, aconteceu aquilo que mudaria de vez meu rumo na vida, eu conheceria a pessoa que me faria mudar de vez meu modo de ver as coisas, de pensar e de agir como uma pessoa normal, uma pessoa que me faria sentir de novo aquilo que eu pensava que havia perdido: Esperança.
Naquela noite eu havia bebido um pouco a mais da conta (o que não era nenhuma novidade) e estava com alguns amigos curtindo o show que acontecia na praia, lugar onde aconteciam as festas juninas do nosso estado. Tudo estava correndo normalmente, como em qualquer outra noite de festa até que André, Will, Pedro e eu, resolvemos ficar em cima das cadeiras, pra ter uma melhor vista da festa. Foi nesse momento que a vi, Izabela era o seu nome. Eu sabia disso porque desde a época em que eu era casado e que morava em Itabaiana, eu a via sempre nos eventos sociais em companhia do namorado, mas nunca havia esquecido o quanto ela era bonita, o que sempre me chamou a atenção. Nesse momento comentei com André o quanto admirava aquela menina que passava próximo a nós, e o quanto queria ter a oportunidade de conhecê-la. Após fechar minha boca fui pego de surpresa ao ver André gritando o nome dela pra que eu pudesse me apresentar. Não sei se foi o efeito da bebida, mas a verdade foi que ao Izabela virar a cabeça pra ver quem estava gritando seu nome, quase que imediatamente fiz um sinal escrevendo um coração no vazio e mostrando que aquele sinal era pra ela. Graças a uma miopia que era curada apenas quando ela usava óculos, Izabela pediu então com um gesto pra que eu me aproximasse, pois não estava enxergando quem estava fazendo aquele sinal nem muito menos quem estava gritando seu nome. Pronto, aquilo bastou pra que todos aqueles sinais que o corpo emite quando a gente está perto da pessoa amada entrassem em ação. Meu corpo tremia, minha voz parecia que não iria sair da minha boca e cada vez mais eu me aproximava dela, mais meus pensamentos se embaralhavam. Quando finalmente cheguei ao seu encontro, pude perceber uma paz e uma serenidade enorme tomarem conta de mim, e como se nada tivesse acontecido, comecei a conversar com ela.
O fato de ela ser da mesma cidade onde eu tinha morado com minha ex-mulher foi o ponta pé inicial pra uma longa e prazerosa conversa que durou praticamente a festa toda. É engraçado como o tempo passa quando a gente está ao lado de uma boa companhia. Falamos de muitas coisas, a coincidência de termos morado na mesma cidade, o fato de eu saber algumas coisas da vida dela, mesmo nunca havido conversado antes, mas o grande momento frustrante da noite foi quando falei de um namorado que ela tinha na época, o qual eu sempre o via em sua companhia. Pra meu desânimo total, ela me falara que aquele namorado ao qual eu tinha citado ainda era o mesmo que estava com ela. Seis anos era o tempo total do namoro entre os dois, dizia ela. Aquilo foi realmente um balde de água fria em qualquer expectativa que eu tivesse ao seu respeito, o que de imediato me levou a baixar meu semblante e querer me despedir dela antes que alguma coisa de inesperada acontecesse, como alguém conhecido deles dois passar e fazer algum comentário maldoso pra ele ou então eu me deixar levar pelo momento da festa e fazer alguma besteira, tipo querer beijá-la ou algo assim. Se havia uma coisa que se notava de longe em Izabela era sua introspecção. Sempre calada, ela não era do tipo que se fazia amizade à toa. Já havia sido uma grande vitória tê-la conhecido naquela noite, e eu não podia arriscar estragar tudo por um simples desejo meu. Ao despedir-me ela perguntou se o fato dela ter namorado atrapalhava em alguma coisa nossa recém-amizade, o que claro, me deixou muito feliz, pois ser amigo de alguém como ela era pra mim, no mínimo, o começo de algo muito especial. Respondi que não atrapalhava em nada, pois a gente podia fazer daquilo ali o começo de uma bela amizade. Dito isso, mais uma agradável surpresa, Izabela então me pede para continuarmos a conversar, já que não haveria problema algum nisso, o que com certeza aceitei na hora, pois aquela noite estaria se tornando uma das melhores noites em que eu havia passado na vida, e olhe que eu não havia ficado ou namorado com ninguém, mas o simples fato de estar conversando com ela ali naquele momento me fazia esquecer Renata, Joana ou quem quer que seja.
A medida que o tempo ia passando naquela noite, mais eu ia me surpreendendo com ela, parecia que nos conhecíamos há anos, mas sempre notava um desconforto por parte dela quando nós falávamos do seu namoro. A verdade é que o namoro deles estava em crise, e o fato dela estar ali sozinha mais uma vez comprovava isso. Falo mais uma vez por que havia visto Izabela poucos dias antes, numa festa promovida por um bar tradicional da cidade, só que na rua, ao ar livre. Cheguei a comentar com minha prima Andreza, que também estava lá, o quanto achava aquela menina branquinha de cabelos longos e lisos, negros como a noite, uma verdadeira Deusa da beleza, e por coincidência ou não, eu estava ali, conversando com ela, cara a cara, em tão pouco tempo depois. Ao ser perguntada por mim sobre seu namoro, Izabela foi pragmática em responder, afinal, se ela estava ali comigo pra todo mundo ver, mesmo que só conversando, era por que as coisas entre eles realmente não iam bem.
Seguimos a noite conversando então, nos conhecendo mais e mais, e aproveitando a noite como ela realmente tinha que ser aproveitada.
Ao final, pra fechar com chave de ouro, trocamos os nossos números de celulares e prometemos nos ligar e não deixar aquela amizade acabar. Pra completar, ao levá-la ao táxi, pois se havia uma coisa que Izabela tinha pavor era andar de moto, frustrando qualquer possibilidade minha de oferecer uma carona. Pedi então que me fizesse um último favor, um abraço, era tudo o que eu queria naquela hora. Ela concordou e a abracei como se há conhecesse há anos. Fazer aquilo foi melhor que qualquer coisa que eu podia imaginar, não houve maldade ou segundas intenções naquele abraço, tudo que houve, foi a representação mais perfeita de um sentimento que aflorava naquele instante, algo que nem eu mesmo sabia explicar. Tudo que eu sei é que naquela noite, eu poderia até dispensar minha moto, porque na alegria em que eu me encontrava, poderia ir para casa voando mesmo, sem duvida nenhuma. Mas como tinha que levar a moto, fui bem devagarzinho, pra que o resto da noite pelo menos, passasse por mim de uma forma que me fizesse lembrar que ali não havia sido uma noite qualquer, mas a noite em que pra mim tinha saído tudo perfeito. A festa, a música e principalmente a companhia.
Os dois dias seguintes, foram de pura apreensão pra mim, liguei para ela mas sem sucesso algum, todas as vezes que tentei, o telefone chamava, chamava, mas ela não atendia. Nesse momento a única coisa que passava por minha cabeça era que ela não queria falar mais comigo, que tinha se arrependido de ter me dado seu número ou qualquer coisa assim. Decidi então parar de ligar, se ela quisesse, ela saberia onde me encontrar. Três dias depois fui a um show de forró que estava acontecendo na cidade e pra minha surpresa, assim que cheguei, Izabela foi uma das primeiras pessoas que encontrei por lá. Mesmo sem saber o porquê dela não ter me atendido resolvi ir até o seu encontro cumprimentá-la. Ao chegar ao seu encontro notei que ela também ficara feliz em me ver e que estava em companhia de uma prima chamada Amanda, não menos bonita, mas tão discreta quanto ela mesmo. Mais uma vez Izabela estava sozinha, sem a companhia do namorado, o que me deixava cada vez mais esperançoso em relação a ela. Começamos a conversar então e no meio da conversa disse a ela que tinha ligado pro seu celular, mas nunca conseguia falar com ela. Pra meu alivio ela havia me explicado que deixara seu celular na casa da tia e tinha voltado pra Itabaiana, pois tinha que trabalhar no dia seguinte em que nos conhecemos. A chuva chegou naquela noite e com ela a oportunidade de ficar um pouco mais próximo dela. Enquanto conversávamos, notei que Amanda estava conversando com um rapaz que, segundo Izabela, era uma espécie de “paquera” da prima. Aproveitei então pra puxar assunto sobre o namorado dela, uma vez que mais uma vez, ela estava em mais uma festa, e sozinha sem ele. Minhas teorias se confirmaram, realmente as coisas não iam nada bem entre os dois, mas eram seis anos de namoro, o que envolvia família, amigos e seis anos de relacionamento. Notei então que Izabela estava passando por um período difícil e seria covardia da minha parte tentar alguma coisa naquela hora. Antes de a festa chegar ao fim, nos despedimos e ficamos de no comunicar depois. O período era de festa e eu sabia que não iria demorar muito pra que eu a encontra-se de novo. E foi isso que aconteceu, poucos dias depois a encontrei num novo show, só que dessa vez tive a desagradável surpresa, Izabela estava com o namorado, o que me deixou bastante triste, então resolvi curti a festa longe dali. Vê-la com ele acabou com qualquer esperança que eu tivesse em relação a ela, então decidi curtir o restinho do período Junino num interior da minha cidade chamado Capela, onde seria muito difícil encontrá-la por lá. Foram três dias de muita festa regada sempre a muita bebida e a conhecer novas mulheres. Mas minha cabeça estava longe dali, não conseguia esquecer Izabela, e ficar com outras meninas não resolvia esse problema. Quando tudo acabou resolvi voltar pra casa e levar minha vida como antes. No dia seguinte fui trabalhar e quando estava voltando pra casa, notei meu celular tocar. Mal pude acreditar no que meus olhos viam, no visor do meu celular estava aparecendo o nome “Izabela”. Encostei a moto e atendi ao telefone o mais rápido que pude. Ao atender, notei que pela voz dela que ela estava contente em falar comigo, e eu também não escondia minha satisfação em poder estar ali falando com ela. Era uma segunda-feira e estar ali com ela do outro lado da linha foi a melhor coisa que tinha me acontecido desde então. Conversamos muito e descobrimos que estava rolando mais do que uma simples amizade entre nós, mas tínhamos que nos conter, afinal, havia um namoro de seis anos entre a gente, e com crise ou sem crise, aquele namoro era mais que real.
Os dias seguintes pareciam todos com aquela segunda-feira, nos falávamos todos os dias e passávamos horas ao telefone conversando sobre como tinha sido nosso cotidiano no trabalho ou em casa. Com o passar do tempo, íamos nos tornando mais íntimos um do outro e eu passava o dia rezando pra chegar a noite pra ouvir a voz dela de novo. Depois de muito nos falarmos resolvi convidá-la pra sair, e combinamos de nos encontrar em Itabaiana, o que pra mim seria ótimo, pois dava para eu ir ver minha filha Alice e ficar na casa de Heldinho, um grande amigo meu que morava lá também, cuja então namorada, Jacyara, morava em frente a minha filha. Eu juntaria o útil ao agradável, além de poder estar perto da minha filha, poderia me encontrar finalmente com Izabela e conversar cara a cara com ela sobre aquilo que estava sentindo ao seu respeito. Combinamos então pra se ver numa quarta-feira à noite, e ao chegar lá eu ligaria pra ela e marcaríamos o lugar do tão esperado encontro.
Ao chegar o grande dia então, peguei minha moto e fui então pra Itabaiana, que não fica muito longe de minha cidade, Aracaju. Uns cinqüenta e seis quilômetros pra ser mais exato eram a distancia total entre as duas cidades o que não demoraria mais do que quarenta minutos pra que eu chegasse lá. Quando finalmente cheguei, fui pra casa de Jaciara, me encontrar com Heldinho e ver minha filha Alice. Ao chegar, fui muito bem recebido por todos, pois assim como eu conhecia Jaciara, também era amigo da sua mãe e seus irmãos. Alice logo veio ao meu encontro, pois me vira chegar de moto e como sua casa ficava logo em frente, não demorou muito pra vir me dar um abraço. Naquele momento da minha vida, as coisas pareciam estar se encaminhando para darem certas. Estava de bem com minha ex-mulher, o que me possibilitava sempre ver minha filha a hora que eu quisesse, estava tudo dando certo no trabalho, e mesmo não namorando Izabela, me sentia muito bem com aquilo que estava acontecendo com a gente.
Peguei meu celular e liguei para ela pra saber onde nos encontraríamos, mas pra minha surpresa, Izabela me diz que seria melhor não nos encontrarmos. Ela ainda teria um namorado e não estava certo fazer isso com ele.
Eu até que concordei, mas insisti em conversar com ela pessoalmente, dessa vez, como um encontro informal. Ela me disse que estava de saída pra fazer uma caminhada, como era de costume e me perguntou se eu queria acompanhá-la. Aceitei de imediato, afinal, o que menos importava pra mim naquele momento era o lugar. Eu fui até lá pra falar com ela e era isso que eu tinha que fazer.
Marcamos então na avenida principal da cidade, onde era comum as pessoas fazerem caminhadas, e o fato da gente se encontrar lá não traria nenhum tipo de desconfiança por parte dos fofoqueiros de plantão. Se bem que Izabela era o tipo de mulher que não ligava pra opinião dos outros. Com vinte e quatro anos de idade, ela estava recém-formada em Direito e exercia o cargo de assistente da promotoria na cidade, o que lhe dava certo status diante os moradores dali. Mas o que mais me chamava atenção no que se dizia respeito à carreira dela, era que Izabela era de uma família simples, mas de gente batalhadora. Ela mesma era filha de caminhoneiro, profissão muito comum naquela cidade, que era conhecida na região como: Terra dos caminhoneiros ou por sua outra característica: a produção de cebola, onde os moradores de Itabaiana até hoje são conhecidos por causa disso como “Ceboleiros”. Izabela começou trabalhando no setor jurídico da Caixa Econômica Federal de Aracaju como estagiária, e depois passou num concurso no Ministério Público Estadual de Itabaiana também como estagiária. Tudo isso em conciliação com seus estudos em Direito na Universidade Tiradentes. Ela trabalhava de dia e estudava a noite. Após se formar e obter seu registro na Ordem Nacional dos Advogados do Brasil, as coisas haviam melhorado e muito no que se dizia a respeito da sua carreira. Agora ela era a Assistente da Promotoria e gozava de um bom salário e de uma posição social boa, coisa que ela nunca deu muita atenção.
Nos encontramos então no local previsto e iniciamos a caminhada. Eu nunca fui adepto a esse tipo de atividade física, mas com certeza aquela em questão estava sendo muito especial. Conversamos sobre algumas coisas, sem importância. Parecia que queríamos passar o tempo até tomarmos coragem pra conversar sobre o que realmente importava. Numa determinada hora, ao passar em frente ao seu trabalho, Izabela me convidou pra conhecer o lugar e aproveitar e tomar uma água. Ao chegar na entrada, demos de cara com um segurança de plantão na guarita que nos recebeu e nos autorizou a entrar. Ao adentrarmos na sala onde ela trabalhava notei que se tratava de um local que tinha um toque formal e ao mesmo tempo familiar. Em cima da mesa havia um retrato de sua sobrinha pequena, filha de Daniela, uma irmã que morava em Jeremoabo, um pequeno interior da Bahia. Pelo visto, a menina era o xodó da tia e sempre que ela vinha visitá-la, deixava boas lembranças. Izabela então pegou um convite de casamento de um amigo que havia esquecido, dois copos de água para bebermos e nos retiramos daquele local. Enquanto estávamos ali, muitas coisas passaram em minha cabeça, uma delas seria dar um beijo ali mesmo, mas uma atitude como essa poderia dar fim a qualquer pretensão futura que eu tivesse de ter algo a mais com ela. Ao sair, ela me deu um dos copos que tinha na mão e prosseguimos então nossa caminhada. Antes mesmo de puxar qualquer outro assunto, ela me perguntou o que eu tinha de tão importante pra falar com ela. Essa era minha deixa. Eu não podia deixar passar a oportunidade de falar tudo o que eu queria e com nervosismo e tudo comecei a falar.
-Eu sei que você tem namorado, eu disse.
-Sei também que seu namoro não anda bem.
-Mas o que mais sei é que desde que a gente se conheceu, eu não consigo tirar você da minha cabeça um segundo sequer.
Pra minha surpresa, o que ouvi de volta me fez por um momento ser o cara mais esperançoso do mundo.
-Eu também gostei de te conhecer, disse ela.
-Também penso em você. Mas estou muito confusa. São seis anos de um relacionamento que muita coisa aconteceu e muita gente participou.
-Eu sei, falei pra ela. -E é por isso que eu estou aqui. -Vim te dizer que não vou desistir de você. -Vim dizer que vou esperar o tempo que for possível. -----Mas que na hora que ele pisar na bola com você... Eu estarei ali pra te apoiar. E no momento que você decidir me dar uma chance, agarrarei esta com todo o amor que tenho, e te provarei que serei digno de ter você como namorada.
Pra falar a verdade eu não sei de onde tirei forças pra falar aquilo tudo, mas o fato é que tanto ela quanto eu sabíamos o quanto era verdade tudo aquilo que dizemos um ao outro.
Decidimos então parar num local onde aconteciam os eventos festivos da cidade, que ficava vazio na semana. Lá resolvemos nos conhecer melhor.
Falamos de tudo. Família, trabalho, planos para o futuro, etc...
O tempo passou e nós nem percebemos. É engraçado como o tempo voa quando estamos ao de quem gostamos. A acompanhei até a casa dela de onde nos despedimos. No final, nos abraçamos e aquele abraço nos mostrou tudo que estávamos sentindo naquele momento. Era muito bom poder senti-la perto de mim. Seu cheiro, seus cabelos, tudo era um misto de paz e satisfação de poder estar ali naquela hora. Pedi a Deus pra que quilo não se acabasse nunca.
Ao chegar à casa de Jaciara, segui com Heldinho até a chácara do seu pai que ficava a poucos quilômetros da cidade. Ao me deitar, mandei uma mensagem do meu celular para ela como sempre fazia desde que a conheci. -Muito obrigado pela maravilhosa noite! Te Adoro! Com Amor: Junior. E eu sempre recebia mensagens com o mesmo carinho ao qual mandava as minhas.
Realmente aquele estava sendo um dos poucos momentos em minha vida ao qual eu estava completo, ou quase completo. Bastava agora, Izabela tomar coragem e acabar o namoro dela pra ficar comigo. Eu sabia que isso não seria tão fácil assim, afinal eram seis anos e segundo ela, tinha a questão da família de ambos que influenciariam e muito nessa decisão e o fato de quer eu queira, quer não, dele ser uma pessoa que podia, a qualquer momento, virar esse jogo e reconquistá-la, o que não seria impossível.
Mas optei por não pensar nisso, por enquanto. O que eu queria era aproveitar o momento. Desde então o que aconteceu nas noites seguintes foram horas e horas ao telefone, nos falando, contando como tinha sido nosso dia. Eu a escutava atentamente, e ela por sua vez, fazia o mesmo. Passávamos horas a fio no celular todos os dias, sem exceção. Nos encontrávamos sempre nos fins de semana, e às vezes na semana também. As pessoas começaram a ver uma mudança muito brusca em meu comportamento. Já não mais gastava meu tempo em festas ou farras, já não bebia tanto quanto antes, e sempre que me chamavam pra algum lugar, eu sempre arranjava uma desculpa pra não ir, com a intenção de passar a maior parte do tempo com Izabela. Ela por sua vez também estava se esforçando nessa relação. Sempre ficava aos fins de semana em minha companhia, se afastando cada vez mais de um namoro que se afundava com o passar dos dias. Era o próprio namorado dela quem estava me ajudando. Sua indiferença, seu desinteresse me ajudavam mais e mais a ter a atenção de Izabela comigo. Quando ela foi pegar sua carteira na Ordem dos Advogados do Brasil, não pude ir pessoalmente, mas mandei logo cedo um buquê de rosas com um cartão dizendo o quanto eu estava orgulhoso com mais essa conquista em sua vida. Ficou claro o quanto eu me importava com ela e isso nos aproximava mais e mais.
Marcamos então pra ir ao cinema, assistir um filme e passar uma tarde juntos. Esse foi um momento que ficou muito bem guardado em minha cabeça até hoje. Nos encontramos então num cinema de um shopping e ao vê-la, notei que ela estaria usando um boné, coisa que nunca havia visto antes. Usar boné era quase uma religião pra mim. Eu usava quase que todo o tempo e ela me disse que tinha sido em minha homenagem. De qualquer forma fiquei muito feliz por isso, aliás, eu estava tão apaixonado que qualquer coisa vindo dela em relação a mim era muito bem recebido. Não demorou muito e tivemos uma surpresa ainda antes de entrar no cinema. Um dos irmãos dela apareceu junto com a namorada e veio ao nosso encontro para falar com ela. Eu não o conhecia até então, mas pelo pouco que pude ver, a relação entre os dois irmãos me pareceu bastante segura e isso é sempre bom de se ver. Por sorte ou não, eles iriam assistir a outro filme o que significava que pela primeira vez eu estaria dentro de uma sala de cinema sozinho com Izabela, o que pra mim, significava sempre uma nova esperança de convencê-la a largar tudo e ficar comigo. Ao entrar na sala, decidimos ficar mais próximo da tela, pra que ela pudesse ler as legendas com mais facilidade por causa da sua miopia.
O filme iniciou e começamos então a assisti-lo. Ela parecia bem à vontade, enquanto eu parecia estar mais concentrado nela do que no próprio filme em questão. Pensava sempre em como fazer pra ela notar que eu queria mesmo era tentar ficar com ela, mas tinha que achar um jeito de fazer isso sem que ela achasse que eu só a levara ali pra fazer isso. Decidi me concentrar no filme então e deixar as coisas acontecerem por si só. Quase no fim do filme Izabela notara meu silêncio e me perguntara se eu estava me sentindo bem ali. Respondi que não, pois o que eu realmente queria era tentar ter uma chance de ficar com ela ali mesmo. Uma das coisas que sempre nos diferenciou muito foi o fato de Izabela ser muito razão e eu ser muito emoção na hora de decidi coisas importantes, e um dos momentos que mais ficou guardado foi quando ela me disse que se me desse um beijo ali, como eu confiaria nela se no futuro chegássemos a namorar? Aprendi da pior maneira que o lado ruim de se querer ter um relacionamento com uma advogada é que não importa nem onde nem quando, elas sempre têm bons argumentos na ponta da língua.
De qualquer jeito ela tinha razão, eu nunca confiaria nela cem por cento se naquele momento ela ficasse comigo. Decidi então desistir de ficar com ela naquele momento, e fazer o que eu mais gostava de fazer quando estava com ela: passar todo o tempo em sua companhia.
Depois do cinema fomos ao boliche que ficava em frente e sentamos numa das mesas pra ficar conversando. Nessa hora pedi para que eu tirasse uma foto do meu celular, só assim eu teria algo de concreto pra me lembrar dela sempre que a saudade batesse. Tirei duas fotos e guardei no celular prometendo pra ela que não mostraria a ninguém, pois se havia algo que Izabela odiava era ter sua imagem exposta. A noite chegou e fui deixar ela no táxi. O engraçado é que sempre em nossas despedidas pintava um clima de “Dessa vez vai!” Que acabava sempre num caloroso abraço.
O fato de Izabela ter medo de moto e eu não poder levá-la comigo, me fez pensar em adquirir um carro. O que de longe, aumentaria minha despesa, mas também seria de grande valia nessa minha cruzada pessoal. Ela também estava à procura de um carro, só que ao contrário de mim, ela tinha um capital bem maior que o meu, e seu salário dava a ela uma melhor condição de sustentar um possível financiamento.
Mesmo assim comecei a alimentar a idéia em minha cabeça e a trabalhar muito mais pra ter uma condição melhor e dar uma entrada mais alta.
Enquanto isso não acontecia, nosso ponto de encontro ficou sendo a Praça de Eventos da cidade, aquela que nos encontramos pela primeira vez pra conversar. Tínhamos um cantinho só nosso e passávamos horas conversando a fio.
O tempo foi passando e minha cobrança por uma atitude de Izabela ia aumentando. Esse era o único assunto que nos fazia discutir mais assiduamente. Eu contava os dias e sonhava com o dia em que Izabela tomaria coragem pra terminar o namoro. Ao mesmo tempo morria de medo daquele sonho em que eu estava vivendo acabasse algum dia desses.
Finalmente consegui vender minha moto e juntar dinheiro pra dar entrada num carro e com a ajuda de Neuvaldo, um tio meu que tinha uma loja de carros usados, consegui adquirir um que me agradou desde que o vi pela primeira vez. Coincidência ou não, nesse mesmo dia, quando fui dar a notícia pra Izabela, ela também havia comprado o carro dela. Mais novo que o meu, é claro, o que me deixou mais feliz do que eu já estava. Ela era uma pessoa a quem eu torcia muito pra que tudo desse certo. Havia se tornado meu Porto Seguro, uma referência de tudo que é belo e bom. Alguém que como eu, veio de família humilde, mas que diferente de mim, tinha uma força de vontade fora do comum em crescer sempre. Mesmo com um bom salário, ela estava sempre estudando uma maneira de subir profissionalmente. Ser Promotora de Justiça era seu sonho, algo que implicava não só em muito estudo, mas em alguns anos de experiência em fórum. Mesmo assim, isso não era empecilho nenhum pra ela, ao contrário, parece que quanto maior a barreira pra ela, mais determinação ela achava pra superá-la.
A compra desse carro veio na hora certa, uma vez que uma semana antes, Izabela e eu havíamos brigado feio por causa de uma festa acontecida num interior próximo a Itabaiana, ao qual ela estava na companhia do namorado.
Ver aquilo me deixou totalmente cego de raiva e no dia seguinte ao me encontrar com ela, disse coisas que queria e que também não queria. Em contrapartida tive que engolir seco quando ouvir de Izabela que quem era o namorado dela era ele e não eu, e que eu sabia desde o começo onde estaria me metendo.
Havia chegado o momento de eu decidir se valia a pena ou não continuar com aquilo tudo. Ela me deu um tempo pra pensar e se realmente aquilo valesse a pena eu teria que suportar a pressão.
No dia seguinte a briga, peguei o telefone e liguei pra ela. Eu não ia desistir de Izabela, não depois de tudo que se passou entre a gente. Disse que minha resposta era que eu a amava, e sabia que não ia ser fácil conseguir ficar com ela. Mas eu estava disposto a passar por todos os desafio possíveis pra ficar com ela.
Conseguir comprar esse carro significava realizar um sonho antigo, e Izabela sabia disso. Ela dizia que eu estava radiante como um menino que consegue um brinquedo que deseja há muito tempo. Mal sabia ela que minha alegria incluía também sua recente aquisição.
Nesse fim de semana não conseguimos nos ver, eu havia passado o sábado praticamente cuidando do visual do carro, pra que ficasse do jeito que eu queria. Jogos de roda, vidros escuros e um som foi o que de imediato eu havia colocado. Mal esperava a hora de mostrá-lo para ela. No domingo também não teve condições, infelizmente ela teria planos pra ir a praia com a família, o que me deixava sem ter opções de vê-la. Com certeza o namorado dela não tinha esse problema e isso me deixava cada vez mais triste em relação a Izabela e eu. Como se não bastasse isso, as poucas pessoas que tinham amizade conosco tinham uma visão diferente daquilo que estava acontecendo. Uns diziam que se ela realmente quisesse ficar comigo, já teria acabado com esse namoro que não a levava mais a lugar nenhum. Outras pelo contrário, diziam que eu tinha que ter paciência, que se realmente eu gostasse dela, teria que suportar mais um pouco a pressão, que já estava no limite pra mim.




A Decepção


Alguns dias sem vê-la foram o bastante pra me fazer pensar em tudo aquilo que estava acontecendo com a gente. Eu já não estava me sentindo tão bem sabendo que apesar de ter uma relação, ainda que conturbada, mas uma relação de carinho e afeto com ela, era o namorado dela que ficava com a melhor parte. Era ele que a tinha nos braços, que podia sair com ela sem ter que se preocupar se alguém estaria vendo ou ainda mais, era ele que podia fazer tudo, e quanto a mim, não podia fazer nada. Numa certa noite, ao receber uma ligação de Bela, como eu carinhosamente a chamava, notei que algo havia errado com sua voz, estava mais triste, mais nervosa. Foi aí então que notei que a essa situação não incomodava só a mim, ela também estava passando pelo mesmo problema.
Foi aí então que resolvi tomar uma das decisões mais difíceis da minha vida: acabar de uma vez com esse relacionamento, que começou como um sonho, mas que já estava tirando nosso sono. Foi então que entrei no mérito da questão e começamos a discutir feio pelo telefone. Ao final decidimos que era melhor nos separarmos e cada um seguir seu caminho. Foi uma das piores noites que passei em minha vida. Não tinha sono algum e minha vida passava como um filme em minha cabeça. Não demorou muito pra perceber que aquela tinha sido uma decisão errada. Se fosse pra pesar minha vida antes de conhecer Izabela e depois, tava na cara que antes dela, minha vida era baseada em festas e farras, sem que eu me importasse nem um pouco sequer com o futuro ou algo assim. Depois que a conheci, meus valores mudaram, comecei a dar valor ao trabalho, a tudo que se relacionava com amor, carinho, companheirismo. Pensava finalmente em ter alguém comigo, alguém que pudesse me abrir as portas, me pudesse abrir os olhos. Fazer-me notar que a vida não se resumia a farra, bebida e mulher. Izabela havia feito isso tudo comigo. Sem que eu houvesse notado, eu agora estaria mudado, enquanto os outros estavam bebendo, eu estava em sua companhia, sempre aprendendo algo, sempre feliz. Como pude deixar que meu egoísmo pudesse fazer isso comigo? Agora eu havia perdido a única pessoa que me fazia ver a vida de um jeito mais promissor.
Dizem que a gente só ama aquilo que admira, e eu a admirava muito. O fato de ela ter crescido na vida, trilhando seu próprio caminho, a maneira pela qual ela se importava comigo, tudo isso me fez ver o quanto Izabela era especial em minha vida.
Foi uma noite longa, eu não consegui pregar os olhos. No dia seguinte fui surpreendido por uma mensagem em meu celular. O nome que apareceu na tela me fez ter esperança de que tudo voltaria ao normal: Izabela. –Tem certeza que essa é a melhor saída pra gente? Dizia a mensagem. Respondi que não, mandando outra dizendo que não sabia mais o que era certo ou não na minha vida. A verdade é que eu estava totalmente perdido, sem saber o que fazer nem o que dizer.
-Então, só me resta respeitar sua vontade! Respondeu ela curta e grossa como se diz por aí.
A noite chegou e meus amigos decidiram me levar pra sair, pra ver se eu me distraía. Afinal, tamanha era minha tristeza que todos ao um redor notavam. Naquele momento, me pareceu a coisa certa a fazer, já que eu não conseguia pensar direito nem tomar qualquer atitude naquele momento.
Fomos então a um show que estava acontecendo num dos pontos mais freqüentados da cidade. O ambiente tava bom, o clima agradável, mas a verdade é que nada daquilo fazia mais parte da minha realidade. A única coisa que me importava, era saber como Izabela estaria naquele momento. Será que assim como eu, ela também estaria sentindo minha falta? Ou será que estaria em companhia do seu namorado e nem estaria pensando como eu estaria naquele momento?
Seja o que for, meu pensamento não estava ali na festa, e sim em Izabela. Saí pra ficar um pouco só e quando tirei o celular pra olhar as horas, notei que havia uma chamada não atendida. -Quem será que ligou pra mim essa hora? Pensei, na esperança que fosse ela que tivesse me ligado. Quando apertei a tecla do celular pra ver quem era, recebi a agradável surpresa: Izabela, mostrava o monitor. Imediatamente retornei a ligação na esperança de falar com ela e pedir desculpas por tudo que havia feito ou dito dias atrás quando propus que cada um seguisse seu caminho. Esperei, esperei e nada. Ela não atendeu. O que naquela altura do campeonato, não havia me deixado tão triste, pelo contrário, receber uma ligação dela tarde da noite me fez ter um pouco de esperança de tudo voltar ao normal entre a gente.
No dia seguinte fui juntamente com minha filha até a casa da minha avó passar o fim de semana com ela. Engraçado como meus avós sempre me transmitiram paz nos momentos turbulentos da minha vida, e agora não seria diferente. Foi lá que decidi ligar pra Izabela e marcar um encontro no dia seguinte, no mesmo local que nos encontrávamos e que se tornou nosso ponto de encontro. Ela concordou, mas pelo som da sua voz, percebi que não seria uma tarefa nada fácil contornar aquela situação.
No dia seguinte, como tinha que levar minha filha pra Itabaiana, resolvi sair mais tarde da casa da minha avó. Pra ver se ganhava algum tempo e pensar em algo pra falar pra Izabela. Nada vinha na cabeça naquele instante e a medida e que as horas iam passando, mais eu ficava apreensivo. Finalmente quando a tardinha chegou fui levar minha filha Alice pra casa e ao chegar lá liguei pra Izabela como havia combinado antes. Marcamos o horário e me dirigi pra lá meia hora antes do combinado. Parecia que fazendo isso eu faria as horas se atrasarem mais e ela pensasse mais um pouco sobre sua decisão.
Quando finalmente ela apareceu, notei que em suas mãos havia um livro que eu havia emprestado pra ela ler. Aquilo pra mim já foi um mau sinal. Quando ela se aproximou e que começamos a conversar, vi que Izabela já havia tomado sua decisão, e que realmente eu havia perdido a chance de ficar com ela como eu havia sonhado.
-Realmente eu pensei muito nesse fim de semana que passou e resolvi que não dá mais pra ficar assim do jeito que estamos! Disse ela. –O melhor a fazer é cada um seguir seu caminho!
Cada palavra entrou em meu ouvido como verdadeiras bombas. Não dava pra acreditar que eu havia perdido a chance de ficar com a pessoa mais especial que eu havia conhecido nesse mundo.
-Eu não quero e nem vou perder você! Relutei. –Mas não é uma questão de querer, e sim de aceitar a situação. Disse ela.
Não tinha jeito, Izabela parecia muito segura do que havia dito, e por mais que eu argumentasse qualquer coisa, ela sempre tinha na ponta da língua uma resposta negativa.
Depois de conversarmos muito, e de eu não conseguir fazê-la mudar de idéia, finalmente aceitei sua decisão e resolvi ir embora, com os olhos cheios d’água, mas me segurando pra não demonstrar que estava quase desabando com aquela decisão.
-Posso ao menos te dar um abraço? Disse ela.
Aquele havia sido nosso ultimo abraço, e ao chegar no carro, desabei como uma criança que acabara de ser abandonada pela mãe. A viagem de volta foi uma das mais longas das inúmeras que eu havia feito por aquela estrada. Minha vida passava por minha cabeça como um filme. E a parte em que eu conheci Izabela aparecia como um replay que teimava em passar continuamente.
Os dias que vieram a seguir estavam sempre acompanhados de uma imensa tristeza. Eu não conseguia esquecer, muito menos aceitar aquela situação. Cada gesto, cada palavra que ela havia me dito ecoava em minha cabeça e insistia em ficar martelando como algo que não passava de forma alguma.
Uma semana se passou e nada havia mudado. Decidi tomar uma decisão e correr atrás do prejuízo. Comprei um buquê de flores, peguei o carro e decidi ir até o trabalho dela pedir uma segunda chance.
Ao chegar no Ministério Público Estadual, local de trabalho dela, resolvi pedir ao segurança da portaria que entregasse aquelas flores pra Doutora Izabela, como ela era chamada por todos. Depois disso liguei pra Heldinho e fui ao seu encontro, na esperança de receber mais tarde uma ligação dela, no mínimo de agradecimento. Ao encontrar com Heldinho, disse-lhe o que havia feito, e que estava desesperado pra conseguir falar com ela.
A ligação acabou acontecendo de fato, mas só de agradecimento. Ela havia me dito que ficara muito feliz com as flores, mas que não poderia vir ao meu encontro, pois estava atarefada.
Dizem que pra um bom entendedor, meias palavras bastam. Foi a partir dali que eu começava entender que realmente minha estória, que nem havia começado ao certo com Izabela, estava acabada.



De Volta ao Fundo do Poço


Os fatos que vocês verão a seguir foram desencadeados pela minha própria falta de fé e meu desespero total no que se diz respeito a minha vida.
Depois de voltar de Itabaiana sem êxito algum com Izabela, resolvi fazer então aquilo em que eu realmente era bom: acabar com meus problemas me enfiando de cabeça em festas, farras e bebidas. Meu descontrole foi tamanho que a primeira conseqüência disso foi a perda do meu emprego. Eu já não tinha mais responsabilidade com nada, e agora, sem trabalho, não tinha como pagar minhas dividas, o que incluía o financiamento do meu carro. O banco vivia ligando pra cobrar parcela em atraso e eu não tinha como pagar. Pra complicar mais ainda minha situação, depois de passar o dia bebendo, resolvi ir com dois colegas, Fabrício e Hugo até uma festa que estava acontecendo próximo de Itabaiana, na esperança de quem sabe, ver Izabela. Ao chegar lá, acabei me decepcionando ao notar que ela não estava presente. Depois de beber mais um pouco decidi dormir no carro e esperar meus colegas voltarem pra gente voltar pra Aracaju. O dia já estava claro e chegou com uma chuva muito forte, enquanto percebi que os dois haviam voltado para o carro e perguntei se Fabrício estaria bem a ponto de voltar dirigindo, já que mesmo tendo dormido, eu não conseguiria levar o carro em segurança pra casa. –Claro que sim! Respondeu ele. Então lhe entreguei as chaves fui ao banco de trás voltar a dormir. Peguei no sono rápido enquanto que Fabrício e Hugo permaneciam na frente conversando sobre a festa. Tudo que eu conseguia ouvir era o som da chuva caindo no pára-brisa do meu carro.
Tudo parecia estar bem, mas já chegando à cidade, Fabrício, cansado da noite que havia perdido e ainda sob o efeito da bebida, acabou cochilando e perdendo o controle do meu carro, que acabou batendo numa carroça puxada por um cavalo e seu dono, um senhor de idade mais avançada que por sorte, acabou não tendo se ferido com a colisão, pois caíra dentro dela, escapando de uma morte certa. Com o impacto, acabei acordando e quando saí do carro, ainda meio sonolento, notei que meus dois colegas estavam se certificando de que nada havia acontecido com o senhor que estava na carroça. Enquanto ao carro, esse ficou com a frente e a lateral totalmente danificada.
Finalmente eu havia conseguido perder tudo que tinha construído naquele ano. A batida do carro fechava com chave de ouro meu ano de perdas.
Minha fé estava definitivamente abalada. Não tinha mais fé em nada e tudo que eu queria naquele momento era sumir. Por muitas e muitas vezes pensei em fazer o que meu irmão havia feito. Tirar a própria vida parecia ser a saída mais fácil pra mim naquele momento. Nada que eu fizesse parecia dar certo em minha vida. Como eu pude descer tanto a ponto de não ter mais nada de material e de emocional pra me importar? As coisas não podiam estar piores pra mim.
Mas ficaram. Sem emprego eu não conseguia pagar a pensão alimentícia da minha filha e depois de brigar com minha ex-mulher, consegui brigar com as pessoas que mais me ajudavam no mundo: meu pai e meu irmão. Sem pensar disse coisas que não devia e que me arrependo até hoje de ter dito. Resolvi jogar em seus ombros toda a culpa de todo o mal que havia acontecido comigo até ali.
Agora não faltava mais nada. Eu era um homem jogado totalmente no fundo do poço.




A Volta por Cima


Depois de tantas coisas ruins acontecendo ao mesmo tempo comigo, fui convidado por minha Tia Genésia, uma espécie de segunda mãe, que junto do seu marido Antonio, a quem sempre chamei carinhosamente de “Tio Tonho” e que sempre estiveram presentes em minha vida nos bons e maus momentos, pra conhecer uma igreja que ficava a poucos metros de onde eu morava. Na primeira missa que fui, notei que se tratava de uma liturgia diferente das outras. Era mais alegre, as pessoas se sentiam mais à vontade e o Padre era uma pessoa jovem que usava uma linguagem mais atual. Aproveitei aquele momento pra tentar conversar com Deus sobre meus problemas, coisa que parecia que eu tinha esquecido como fazer. Chorei durante alguns minutos e prometi pra mim mesmo que não iria desistir de lutar tão fácil assim. Desde então passei a freqüentar aquela igreja com freqüência.
Nesse tempo eu já tinha conseguido um trabalho na área de Telecomunicações numa firma que prestava serviços para uma grande empresa da mesma área. O salário não era nem de perto tão bom quanto meu último emprego, porém eu já estava empregado e isso era o que importava. As pessoas que trabalhavam comigo também me deram muito apoio o que foi fundamental pra que eu pudesse me reerguer profissionalmente. Infelizmente não deu pra ficar muito tempo, pois acabara o contrato dessa firma junto à tal empresa o que acarretou em uma demissão em massa de funcionários.
Novamente desempregado, tive que sair do apartamento em que eu morava sozinho e fui morar com Carlos, meu ex-gerente que havia se tornado um dos meus melhores amigos. Se existe uma coisa a quem eu sou eternamente grato, essa coisa chama-se “amigos”. Nesse quesito sempre fui abençoado por tê-los sempre por perto. E não eram amigos de mesa de bar, como os que só te acompanham quando você tem dinheiro e está por cima. São amigos que mesmo sabendo que você está mal e sem dinheiro, não te abandonam e sempre fazem algo pra te ajudar. Antes de Carlos, eu já havia sido hospedado em casa por outro grande amigo chamado Eduardo, a quem todos chamavam carinhosamente de “Dudu”, que em outra época conturbada da minha vida, me deu abrigo.
A maioria dos meus amigos eram primos e parentes, e poucos eram os que não tinham nenhum parentesco comigo. Carlos era um deles, mesmo sabendo que eu estava desempregado, me deu abrigo e comida e sempre estava pronto pra me dar uma palavra amiga nas horas que a tristeza apertava. Enquanto não arranjava emprego, pude ficar na casa dele o que me ajudou muito, pois senão fosse por isso, teria que mais uma vez voltar pra casa do meu pai, o que pra mim, era inadmissível.
Mesmo freqüentando a igreja, ainda havia muita mágoa em meu coração. Não conseguia enxergar que tanto meu pai quanto meu irmão queriam apenas meu bem. Não via minha filha há algum tempo e não conseguia ser humilde o suficiente pra aceitar a ajuda de quem quer que fosse. As únicas pessoas que andavam comigo eram Jairzinho e Heldinho, amigos de infância a quem devo muito até hoje. Eram eles que, juntos com Carlos, Dudu e outros, sempre tentavam abrir meus olhos em relação a minha família.
Coincidência ou não, foi exatamente no dia dos pais que as coisas começaram a melhorar pra mim. Depois de muito pensar, resolvi ligar para meu pai e deseja-lhe feliz dia dos pais. Tremendo, peguei o telefone e falei meio sem jeito com ele, que do outro lado da linha, demonstrou satisfação ao ouvir minha voz. Conversamos um pouco e ao me despedir, chorei de emoção, pois percebia ali, que eu não estava sozinho no mundo, como sempre havia pensado desde a morte da minha mãe. A partir dali, resolvi não mais perder tempo sentindo pena de mim mesmo. Resolvi enfrentar meus problemas de frente, e agora, eu tinha meu pai ao meu lado, que junto com meu irmão, tornaram-se minha base sólida pra um recomeço de vida.
Meu primeiro passo foi tirar Izabela do status de prioridade em minha vida. O que eu tinha que fazer primeiro era conseguir um emprego, uma fonte de renda pra que eu pudesse iniciar minha volta por cima. Nem Izabela e nem mulher nenhuma no mundo quer ficar com um fracassado, com alguém que se sente inferior aos outros, pois era assim que eu me sentia. Não demorou muito e arrumei um emprego na área em que um dia, estava entre os melhores: Telecomunicações. Nesse tempo, eu já havia me mudado pra casa dos meus avós, pois não podia ficar mais abusando da hospitalidade de Carlos.
Meus avós moravam longe, e pra ir trabalhar, eu tinha que pegar dois ônibus e acordar mais cedo que todo mundo pra não chegar atrasado.
Assim sendo, a cada dia que passava, eu me esforçava mais pra voltar a ser um excelente profissional, e quem sabe, voltar a ter algumas das minhas prioridades cumpridas, como: morar em um bom lugar, conseguir um transporte, ter dinheiro pra poder ajudar na criação da minha filha, coisa que meu pai estava fazendo até então, sem nunca ter reclamado sequer.
E por falar em meu pai, quando chegou o Natal, pude fazer uma coisa que pra muita gente é comum, mas que pra mim era inédito. Levar minha filha pra passar o Natal com meu pai e sua família, aliás, minha família, e pra falar a verdade, pude perceber que amor, não está relacionado a egoísmo, a interesse ou a qualquer sentimento mesquinho como os que eu sentia por Izabela. Amor, está relacionado a paz de espírito, a ver no rosto de uma criança, a plena satisfação de estar ali, pelo simples fato de você ser o pai dela. É ver essa mesma satisfação no rosto do meu pai, pelo simples fato de escutar de uma criança uma só palavra: vovô.
Finalmente pude perceber que pra amar alguém, tem-se que primeiro se amar. Tem-se primeiro que fazer da vida único e verdadeiro caminho, e da fé, a única e total fortaleza.




A Decisão


Poucos dias antes do Reveillon daquele mesmo ano, marquei com Jairzinho e Helder que passaríamos juntos na casa de praia do pai de Jairzinho num interior próximo. Faltando dois dias pra virada do ano resolvemos partir pra aproveitar, já que tratava de um feriado prolongado. Junto conosco também foram alguns amigos nossos como Elizângela, namorada de Jairzinho, Pedro e a namorada Francielle, Eduardo, irmão de Francielle junto com sua companheira Ana Elisa, e Diogo, um amigo nosso que sempre nos acompanhava nas festas. Chegando lá encontramos o pai de Jairzinho quase de partida, pois iria passar o Reveillon em Aracaju junto com a esposa, Aurora, que estava a sua espera.
Mas não foi isso que aconteceu. Antes de decidir ir embora, o Sr. Jair, pai de Jairzinho, resolve abrir um litro de whiske e fazer companhia pra todos que estavam na casa. Até aí, não havia mal algum, uma vez que ele estava na própria casa e na companhia do filho. Mas as horas vão se passando e a cada gole, o pai de Jairzinho mostra-se cada vez mais aberto aos efeitos que o álcool provoca e começa a falar cada vez mais enrolado e sem nexo algum nas suas conclusões. Isso acaba preocupando Jairzinho, que na frente dos amigos, mostra-se envergonhado perante as atitudes do pai. Ao tentar conversar, os dois, pai e filho, começam uma verdadeira briga, o que leva o Sr Jair a expulsar Jairzinho e todos seus amigos de casa pra fora. Aos prantos e envergonhado com a atitude do pai, Jairzinho pega todos os seus pertences e vai embora junto com todos que estavam na casa com ele.
Uma das coisas que eu sempre havia me perguntado era como seria se meu pai fosse como os outros pais dos meus amigos. Eu sempre via meus amigos bebendo com seus pais e isso sempre me passava pela cabeça, uma vez que meu pai não bebe, nem tão pouco aprovava que eu bebesse. Naquele dia na casa de Jairzinho, senti orgulho de ver que meu pai nunca havia feito aquilo. Eu nunca vi meu pai chegando bêbado, nem tão pouco tratando ninguém mal por causa da bebida. Aquilo ali me fez ficar aliviado, como se algo quisesse me alertar.
Depois de sermos expulsos da casa de Jairzinho, decidimos ir então ao sítio de Pedro, que ficava bem próximo a capital, mas ao mesmo tempo isolado. O pai de Pedro estava viajando e gentilmente cedeu o sítio pra gente poder ficar lá. Assim como meu pai, ele havia transformado o sítio num refugio de paz e tranqüilidade. Com uma boa área, uma excelente piscina, uma área de festas e uma boa casa, não nos faltava mais nada.
Ao chegarmos lá, a noite, estávamos exaustos, e fomos dormir assim que chegamos. No outro dia, Pedro resolveu matar um porco pra fazer churrasco e começamos a beber desde cedo. Após o churrasco, passei mal e comecei a ter febre alta e diarréia, o que me levou ficar de cama. Ainda faltavam dois dias para o Reveillon, e tive esperança de melhorar até lá. Mas o que veio a seguir foi uma piora no meu quadro clínico e a cada hora eu piorava mais e mais.
É notável como a visão de quem está do lado de fora pode enxergar o quanto as pessoas mudam seu comportamento por causa da bebida. O período em que passei doente lá no sítio, me fez ver o quanto ficamos agressivos, inconvenientes, o quanto falamos besteiras e tudo isso sobre o efeito do álcool.
Foi daí que decidi que não iria mais ser prisioneiro de um vício. Não iria mais beber pelo simples fato de me sentir melhor momentaneamente. Não iria mais beber pra esquecer dos meus problemas, uma vez que apenas bêbado, podia esquecê-los. Naquele sítio, pude ter tempo de pensar no que podia fazer pra que minha vida mudasse, então decidi tomar a primeira decisão pra que isso acontecesse. A partir dali, eu iria virar o ano com o pensamento e a fé de nunca mais encostar num copo de bebida alcoólica.
Não foi uma decisão fácil de ser tomada, mas eu tinha que decidir finalmente se iria continuar vivendo como um eterno adolescente sem responsabilidades ou encarar meus problemas de frente, sem ter que me esconder atrás de um copo.
Achei a primeira alternativa a mais correta.

Se voltaria a beber ou não mais tarde, isso dependeria muito da minha força de vontade, mas o mais importante eu já havia feito: tomado uma atitude.
E foi o que fiz. Passei o réveillon sem beber e alguns dias depois dali também. Mas o fato é que sempre ficava me perguntando se aquela teria sido a melhor decisão. Decidi então pagar para ver, testar meu limite. Parar de beber me deixava com a impressão de que tinha perdido meu controle pra bebida e voltar a beber, dessa vez com moderação me pareceu ser a saída mais fácil de ver quem mandava em quem.
Dessa vez as coisas estavam diferentes. Já não mais bebia pra esquecer os problemas ou pra ter coragem pra fazer alguma coisa. Bebia pelo simples fato de satisfazer meu ego sabendo que agora, eu podia parar a hora que eu quisesse, sem ter que exceder meus limites.




Conclusão

O que esse livro quer mostrar, é que por mais difícil que seja nossa caminhada, temos sempre opções. O caminho mais fácil nem sempre é o mais viável, e pra aprendermos a trilha certa, às vezes é necessário que nos percamos pra ter certeza de uma caminhada segura. Ele também nos mostra que amigos são imprescindíveis, mas apenas os verdadeiros amigos. Mas o mais importante, é acreditar sempre, ter fé, uma das poucas coisas que a ciência ainda não conseguiu explicar. Esse fenômeno que nos faz ultrapassar nossos limites, que muitas vezes nos cura de enfermidades antes sem solução, e que na maioria das vezes, nos ajuda no nosso dia a dia. Quando encontramos um mendigo nas ruas e ou alguém sem perspectiva de vida nenhuma e o ouvimos falar: “Graças a Deus” ou “Com Fé em Deus”, vemos aí um dos maiores exemplos não só de esperança, mas de fé em algo que ninguém nunca viu ou tocou. Algo que por mais invisível que pareça aos nossos olhos, reside sempre em nossas cabeças e em nossos corações. É essa fé em Deus que nos permite sempre enxergar um futuro promissor de que tudo vai melhorar.Mas é importante que se ressalte que sem atitudes, não se muda nada. A fé é importante, mas a atitude e a força de vontade são imprescindíveis no crescimento de qualquer pessoa. Minha estória de vida ainda continua. Dia a dia, faço o que posso pra poder dar um futuro melhor a minha filha. Minha relação com meu pai nunca esteve melhor. Trabalho muito pra que eu possa crescer sempre o mais profissionalmente possível. E o principal, tenho amado a pessoa mais importante desse mundo pra mim de uma maneira pela qual nunca havia feito antes, ou seja, tenho amado muito a mim mesmo. Tudo isso graças a minha fé em meu Deus, que por mais que eu tenha sofrido, nunca havia me abandonado dela. Não é preciso ter uma religião pra se ter Deus no coração, mas é muito importante procurar estar perto dele seja em qualquer que seja sua casa, evangélica, católica, espírita ou num terreiro. O importante é não deixar de acreditar nunca. Não quero entrar aqui numa discussão sobre a existência de Deus ou não, mas quero atentar que a fé na sua existência tem sido motivo de estudos até hoje por parte da ciência, que ainda não conseguiu explicar como mesmo vivendo num caos tão grande, milhares de pessoas que vivem às margens da sociedade, conseguem viver um dia após outro com esperança de que tudo vai melhorar.Como se explicar o fato das pessoas deixarem anos de vício através da fé, e mais, abandonarem por completo toda uma vida de dependência pra viver uma vida normal, sem drogas, apenas com a força da fé. Ou como um paciente em estado crítico, consegue obter a cura, mesmo desacreditado pelos médicos.É essa fé que no faz acordar todos os dias com a certeza de que por maiores que sejam nossos problemas, temos sempre algo a que nos apegar, algo que apesar de não poder ser visto, pode nos trazer paz e esperança. É por causa dessa fé que sempre podemos ver aquela luz no fim do túnel, e é por causa dela que vivo até hoje, na esperança de não só poder viver num mundo melhor, mas também de poder fazer parte desse mundo. “Esse livro é dedicado a todas as pessoas que de uma forma direta ou indireta fizeram com que ele fosse escrito de uma maneira tão espontânea e real”. Agradecimentos Primeiramente a Deus que através de suas provações para comigo tornou-me mensageiro para tantos outros que passam por dificuldades iguais ou maiores que as minhas. Ao meu pai e meu irmão que sempre me serviram de base e de referencia de tudo o que bom e honesto na vida. Aos meus avós maternos e paternos por sempre me dar o apoio necessário nas horas difíceis. Aos anjos que aqui nesse livro chamo de amigos, aos quais estão inclusos parentes como tios, primos e pessoas que fizeram ou fazem ainda parte do meu ciclo de amizade. As pessoas que aqui não foram citadas, mas que de uma forma não menos importante contribuíram e muito pra que esse livro fosse escrito.Que todo leitor que desse livro experimentar a leitura possa reforçar sua fé na esperança de um dia poder dar seu testemunho de que também foi salvo por essa divindade, entidade ou qualquer que seja o nome dado ao que muitos chamam de Deus, Alá, Jeová, etc... E que se uma só pessoa for ajudada por essa leitura, já foi valida a pena sua publicação.

8 comentários:

  1. Meu colega, amigo e irmão,
    Parabéns pelo seu primeiro livro, espero que não para por aqui, pois é vidente o seu talento.
    Se já era seu admirador, agora sou seu fã, rsrsrs
    Continue essa pessoa maravilhosa, e certo da sua vitória, espero esta ao seu lado para comemorarmos juntos, ou seja, tomarmos todas, rsrsrs
    Sucesso sempre e fique com DEUS!!!
    Beijos...
    Carlos Aguiar

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  2. Meus parabéns pela bela obra.
    Nossos valores morais, espirituais nos ajudam a desenvolver e aumentar a nossa fé em nossas crenças independentes das que sejam.
    Adorei a idéia e a construção de todo seu texto.
    Espero que consiga o que desejas e quando precisar de divulgação para sua obra estarei a sua disposição.
    Agradeço o espaço e desde já me transformarei em sua seguidora.
    Obrigado colega escritor por sua contribuição á nossa cultura brasileira com sua obra.
    Gosto de ver jovens como você manifestando suas idéias e crenças pela literatura.
    Abraços Malu Freitas
    Artpoesia & Abracadabra

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  3. Muito obrigado pelas palavras...pode deixar q o segundo livro já está a caminho. Espero conseguir apoio pra publicar e poder levar a todo o público o conteúdo dessa obra!!
    Mais uma vez muito obrigado!

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  4. Junior amore,Parabéns pelo teu livro...
    Espero que tu continue escrevendo outros livros,adorei de verdade...Parabéns de novo!
    cheiro de sua amiga que lhe adimira(Thalita)
    ^^

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  5. Quando o sonho se desfaz,
    Deus reconstrói.
    Quando se acabam as forças,
    Deus renova.
    Quando é inevitável conter as lágrimas,
    Deus dá alegria.

    Quando não há mais amor,
    Deus faz nascer.
    Quando a maldição é certa,
    Deus transforma em benção.

    Quando parece ser o final,
    Deus dá novo começo.
    Quando a aflição quer persistir,
    Deus nos envolve em paz.

    Quando a doença assola,
    Deus é quem cura.
    Quando o impossível se levanta,
    Deus o torna possível.

    Quando faltam as palavras,
    Deus sabe o que queremos dizer.
    Quando tudo parece se fechar,
    Deus abre uma porta.

    Quando você diz: não vou conseguir,
    Deus diz: Não temas, pois estou contigo.
    Quando o coração é machucado por alguém,
    Deus é quem derrama o bálsamo curador.

    Quando não há possibilidade, Deus faz milagre.
    Quando só há morte, Deus nos faz persistir.
    Quando a noite parece não ter fim,
    Deus faz nascer o amanhecer.

    Quando caímos num profundo abismo,
    Deus estende sua mão e nos tira de lá.
    Quando tudo é dor, Deus a dá o refrigério.
    Quando o calor da provação é grande,
    Deus dá a sombra de sua presença.

    Quando o inverno parece infinito,
    Deus traz o verão.
    Quando não existe mais fé, Deus diz: Acredita!

    Quando estamos a um passo do inferno,
    Deus dá a direção do céu.
    Quando não temos nada,
    Deus nos dá tudo.
    Quando alguém diz não somos nada,
    Deus nos diz que somos mais do que vencedores.
    Quando se torna difícil caminhar, Deus nos carrega no colo.
    CONTINUE A SUA EMPREITADA NA TUA VIDA E PODER CONTAR COMIGO;
    BEIJO... ANNY!

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  6. valeu a licão vc é nao so um amigo vc é mais vc sabe ne porra.




    jenderson

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  7. Júnior, como uma pessoa da família eu pude acompanhar um pouco da sua história, mas nunca desa maneira,pois na época eu também era muito jovem...vc escolheu a melhor maneira de encarar a vida...procurando Aquele que é o consolo nas horas difíceis e contentamento nas horas de alegria...Jesus Cristo...Sua mãe e seu irmão devem estar orgulhosos de vc...Espero poder ler outras obras suas e qdo vc publicar seu livro não esqueça da sua prima que te admira muito.
    Bjos!
    Paulinha

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  8. Daniel (" melhor amigo")18 de julho de 2009 às 03:24

    Junior, meu grande amigo e irmão de infãncia... que bela surpresa!!! sua história merecia mesmo um livro e eu confeço que estou muito emocionado.
    Gostaria de falar nesse momento algo que nunca tive a oportunidade de falar. Você pra mim além de grande amigo, o melhor dentre os melhores, é também uma referência de força espiritual, de superação dos obstáculos mais imaginaveis... exemplo de fé em firmeza. Amigo, você não imagina o quanto você é forte, apesar da fragilidade do ser humano. Tenho a certeza que você tem dois verdadeiros "Anjos", seus maiores presentes, sua fortaleza, que cuidam de você lá no "Céu". Espero encontrar você em breve,bicho! estou morando hoje na casa que era de Matagal, aqui na rua das Dálias... abração

    ESTOU ESCREVENDO UM TRECHO FALANDO SOBRE SEU LIVRO E ENVIAREI PRA VC EM BREVE...

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